Depoimento #002 – Roberto Louzada. Alfaiate

Bodoque Artes e ofícios Museu de Artes e ofícios Bodoque

Este é um pequeno trecho, já processado, da entrevista de documentação de história oral para o acervo digital do Museu de Artes e ofícios Bodoque (MAOB/Bodoque Artes e ofícios).

Convidado: Roberto Lage Louzada
Responsável pela entrevista: Francisco Faulhaber

Captação do depoimento: Leonardo Morais

Condução da Entrevista: Leonardo Morais

Depoimento #001 – Tarcísio Louzada – Alfaiataria

ENTREVISTA #001 – Alfaiataria – Ofícios do fio

Bodoque Artes e ofícios Museu de Artes e ofícios Bodoque

Este é um pequeno trecho, já processado, da entrevista de documentação de história oral para o acervo digital do Museu de Artes e ofícios Bodoque (MAOB/Bodoque Artes e ofícios).

Convidado: Tarcísio Lage Louzada
Responsável pela entrevista: Francisco Faulhaber

Captação do depoimento: Leonardo Morais

Condução da Entrevista: Leonardo Morais

O Museu e seu entorno como território educador

Na etimologia da palavra Museu, do latim MUSEUM, derivado do grego MOUSEION, reportamo-nos ao que é “próprio das musas”. Da semiologia da expressão, temos por entendimento a referência básica ao Templo, ou seja, onde residem as musas e divindades gregas que inspiravam diversas formas de arte. Outrossim, esta definição, embora seja o alicerce fundamental para o entendimento das atividades de um museu na comunidade em que está inserido, não deve nos impedir de analisar com atenção as transformações no tecido social que trouxerem outras maneiras de compreender a atuação do Museu em nossos dias.

Muito além de salvaguardar seus acervos e comunicá-los, os museus, desempenham um papel importante e estratégico para transformação social. E a educação ocupa lugar de destaque nesse aspecto.

Entendendo os objetos museológicos e as narrativas expográficas como ferramentas de trabalho, a divisão de educação, ou o setor educativo de um museu, tem como principal papel atuar como um agente facilitador nos processos experimentados pelo visitante diante do acervo. Por este motivo, a maior parte do trabalho de um educador em um museu consiste em criar estratégias de mediação que proporcionem ao visitante autonomia sobre o conhecimento que deseja construir. Por isso, se faz necessário constituir e consolidar abordagens que investiguem as instituições com ênfase nos objetos museológicos, no espaço arquitetônico, e área do entorno, buscando proporcionar uma experiência única de vivência e aprendizado para o público. 

Com relação a mediação, um método que se apresenta como relevante caminho ao educador de museu é a busca por explorar a potência dos conceitos que os itens do acervo carregam, especialmente a partir de observações feitas pelo próprio visitante. Deste modo, o mediador trabalha com as possibilidades de interpretação, que retiram o visitante de sua posição de mero expectador e o traz para o centro deste processo. Por este motivo, existe uma dedicação especial nas pesquisas realizadas pelo educativo de um museu em desenvolver abordagens que vão além das características elementares da instituição, propiciando aos interlocutores inquietações que permitam a compreensão de contextos políticos, sociais, culturais e até mesmo acerca das predileções estéticas que cada indivíduo carrega consigo.

Portanto, em espaços não formais de educação, os processos tendem a ser mais abertos e as estruturas menos rígidas na dinâmica de ensino e aprendizagem. Isso ocorre porque é fundamental se apropriar da ideia de que a experiência museológica, ou seja, o ato de se adentrar em um museu e estar presente durante este processo, prevalece em relação à mera explanação de informações, privilegiando a experiência do visitante ao espaço como prática libertadora de aprendizagem. 

Sendo assim, é interessante pensar que, muito além de um templo onde repousam as musas adornadas por sacrifícios intelectuais, o museu sinaliza um território educador, como um marco no tecido urbano da cidade, que anuncia a extensão de suas práticas à dimensão humana de cada indivíduo.

Uma conversa com a Educadora Juliana Prado sobre sua atuação no Museu Casa do Pontal

Você conhece o Museu Casa do Pontal? Localizado no bairro Recreio, no Rio de Janeiro, ele é considerado o maior e mais significativo museu de arte popular do país. As obras que estão sob sua guarda nos mostram como a realidade local pode influenciar diretamente no fazer artístico. Seu acervo nos permite estabelecer relações muito claras entre poética, materialidade e território, já que muitas dessas obras retratam a partir do barro e da madeira, cenas do cotidiano desses mestres de arte, artesãos e artífices, que emergem de um contexto onde a arte significa, sobretudo, uma forma de trabalho, um ofício.

Tivemos a oportunidade de conversar com a arte educadora Juliana Prado Teixeira, que atuou como coordenadora educacional da Casa do Pontal do ano de 1998 a 2015, e atualmente atua no Museu eventualmente na formação de mediadores para exposições. O educativo da instituição conta com visitas teatralizadas educacionais, seminários, oficinas, atividades em escolas, formação continuada e publicações direcionadas, e teve seu trabalho reconhecido através do Prêmio “Amigo das Escolas”, concedido pela Secretaria Municipal de Educação (2002), pela Menção de Destaque para o Programa Educacional e Social no Prêmio Somos Patrimônio (2008) e pela Menção Honrosa no Prêmio Darcy Ribeiro de ações educativas em museus, concedida pelo Departamento de Museus do Iphan (2008).

MAOB – Na sua visão, qual a importância da preservação e difusão de acervos que carregam narrativas sobre a cultura popular brasileira?

Juliana – Bem, é importantíssimo pra nossa formação saber de onde viemos, como interferimos no planeta, rever nossas experiências bem ou mal sucedidas. Isso nos dá um sentimento de pertencimento a determinado grupo. Nos traz auto-confiança, auto-estima, noção do coletivo, resgata afetividades, autoconhecimento e criatividade para lidar com os desafios da vida. E no caso da cultura popular, que nasce nas camadas menos favorecidas da sociedade, isso é essencial porque demonstra que a cultura está em toda parte, independente de fatores econômicos e sociais. Esse reconhecimento da importância da cultura popular é essencial para a formação de uma sociedade justa, igualitária, criativa e colaborativa.

MAOB – Que postura a ação educativa museal deve assumir para contribuir efetivamente no respeito e conhecimento da diversidade cultural brasileira?

Juliana – Ela deve assumir uma postura dialogal com o visitante e principalmente com os estudantes. Porque através do diálogo você pode fazer links interessantíssimos de elaboração cognitiva do acervo e da visita. Uma visita ao museu pode se transformar numa “experiência inesquecível”. E até mesmo abrir portas para transformação de vidas. Claro que quando a gente vai dialogar com alguém é necessário que estejamos com a mente e o coração abertos e que estejamos atentos para perceber que tipo de linguagem e conversa podemos desenvolver, sem pré-conceitos e preconceitos. Cada público é um público, cada estudante é um estudante, o indivíduo e o coletivo, o uno e o todo. E precisamos estar com uma escuta bem ativa para podermos perceber o outro, suas necessidades e afetividades. Acolhimento, escuta e afeto são palavras-chaves para um bom trabalho educacional no museu.

MAOB – A Casa do Pontal oferece visitas teatralizadas, você pode explicar quais são as diferenças deste tipo de visita e como ela surgiu?

Juliana – A visita teatralizada utiliza a linguagem teatral para fazer instigações a fim de contextualizar as obras através de versos, músicas, danças e dramatizações. Muitas vezes essas linguagens artísticas despertam memórias afetivas que nos permitem criar sentidos relacionados ao acervo. Sentidos tanto individuais como coletivos. Nós só absorvemos o aprendizado quando ele faz sentido pra gente, nem que ele seja imaginado, ou seja, quando elaboramos e participamos ativamente da criação do conhecimento. Aí aprendemos de fato. No caso da arte popular é muito fácil criar sentido porque é uma arte de comunicação muito direta, mas mesmo assim é importante que o público possa criar e elaborar seus próprios sentidos, num diálogo permanente entre eles e com o acervo.

A visita teatralizada foi criada ao percebermos que o acervo do museu nos remetia a versos, músicas e histórias da cultura popular que praticamente surgiam das obras por elas mesmas. Como se as esculturas falassem, dançassem, cantassem. A cultura brasileira é muito rica e diversa. E a arte está presente muito intensamente nas nossas vidas. A linguagem teatral é muito dialogal, é viva, em ebulição, ao mesmo tempo diáfana e transformadora. O teatro é livre para quebrar estereótipos, permitindo que o público se veja, muitas vezes, criando novos papéis para si e elaborando novas possibilidades para a resolução de problemas. Abre as portas da criatividade.

MAOB – O trabalho aparece com frequência como tema nas obras do Museu, por que você acha que existia esse interesse em retratar as profissões?

Juliana – Porque, como dizia Jacques Van de Beuque, o criador do museu, “o povo brasileiro está sempre trabalhando”. O trabalho está no dia-a-dia de todo mundo. Ele é muito importante no imaginário social. Ter um ofício ou uma profissão nos torna cidadãos reconhecidos socialmente. Até mesmo na hora de festejar e se divertir o trabalho aparece. A cultura popular tem sua complexidade também, sua elaboração, sua organização, mesmo que possa parecer, a princípio, caótica. Isso requer trabalho. Nas festas populares, por exemplo, existe uma quantidade enorme de pessoas trabalhando para sua realização. Nas danças, nas indumentárias, na música, na culinária, nos cenários, etc… Às vezes, a comunidade inteira está envolvida nessa produção. De modo que o trabalho, a arte e a criatividade andam juntos, não tem separação, não tem gavetinhas, é tudo misturado no dia-a-dia com muita alegria e colaboração.

MAOB – Ao relembrar sua longa jornada enquanto educadora no Museu Casa do Pontal, imagino que venham muitas memórias de afeto das experiências de mediação vivenciadas ali. Existe alguma que se destaca? Por quê?

Juliana – Realmente, foram 18 anos de aprendizado constante, muita afetividade, muitas descobertas, muita troca com os estudantes, professores, pessoal das organizações e projetos sociais, seminários, atividades e exposições fora do Museu, até em outros países. Uma experiência transformadora para mim, como pessoa e como educadora. É muito difícil citar uma única experiência, ainda mais assim rapidamente. As pessoas voltam ao Museu, muito tempo depois perguntando sobre determinada música, artista que conheceu ou versos e atividades feitas. Sempre querem voltar, trazer um amigo, um parente. Muitos relatos de portas que se abriram. Me lembro de uma menina que saiu de uma visita e comentou, “puxa, não sabia que eu era tão importante pra ter um museu sobre as minhas coisas…” E aí você vê o que pode ser “uma experiência inesquecível”.