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[Artigo] As oficinas e a Fábrica: um panorama do trabalho na contemporaneidade.

por: Francisco Faulhaber

O exercício da vida indica a necessidade de sobrevivência. Isso porque, estar no tempo significa buscar a garantia de continuidade, não importa se jovem ou idoso, racional ou irracional, animal ou planta… Em cada forma de vida observamos que todos se dispõem a continuar – um impulso de querer viver.  Portanto, lidar com a materialidade é um requisito da condição de ser, porque somos todos ela mesma. 

Para nós, humanos, condicionar-se e condicionar a matéria se configura como um método de  sistematizar a dinâmica da realidade, ultrapassando os limites estipulados pelo gene. Tudo isso, fruto, literalmente, da mani-pulação do que chamamos matéria prima, para a obtenção de um resultado (contraditório?) da própria Natureza. Desse esforço em continuar vivo surge a cultura, que logo se irradia com seus desdobramentos. Dos eventos mais significativos da estadia humana na Terra, o fogo, a roda, e até a disseminação de nossa espécie para todos os quatro cantos do Planeta, podem ser considerados motores para o ignição das estruturas de trabalho,  assim como foram os lugares geográficos que nos impuseram a necessidade de adaptação, bem como os tipos de manifestações da nossa organização coletiva e cosmologia. Diante desses desafios da sobrevivência, e segundo as peculiaridades dos lugares, o homem pôde aprender um modo de existir interferindo diretamente na materialidade, e aquilo que seria pura expressão, diante do pensamento sobre a ação, se abre na possibilidade de algo essencialmente humano: o aprimoramento. 

O mote da nossa reflexão, uma comparação entre modelos de trabalho, envolve, dentre outras coisas, a gênese desse aprimoramento. De fato, nossas vidas atualmente, encontram-se imersas em certos valores modernos, como a conversão matemática dos fenômenos, as consequências do processo secular, a superespecialização, etc. Entretanto, tais características não definem todo o sentido evolucionário contido no termo que estamos tratando. Ou seja, ao contrário das irrupções culturais da atitude filosófica e do Cristianismo, as marcas que desenhamos na matéria tem origem em nossas necessidades, e sempre nos acompanharam.  

Nesse sentido, sabendo que das atividades primitivas de sobrevivência se constituiu o arcabouço simbólico das artes e dos ofícios, somos capazes de atravessar o tempo e observar que a essência dessas estruturas permanecem sempre presentes por todas as regiões, e conservam, até os dias atuais, a continuidade geracional e as singularidades daqueles que integram seus processos. E esse não foi um percurso fácil. Vale lembrar que, na maior parte da história, o “trabalho braçal” não era bem visto socialmente e a arte passa a ganhar um status diferenciado, ao menos no Ocidente, a partir do período da Renascença. Sendo assim, podemos dizer que o artista enquanto trabalhador finalmente passa a “existir” no momento em que passa a somar a racionalidade matemática e filosófica às suas habilidades artesanais (mecânicas), dentro de uma noção sensibilidade tida como intelectual. Por outro lado, os demais trabalhos artesanais continuaram “menores”, colocados em segundo plano. Essa é uma clara divisão entre utilidade e contemplação que reflete diretamente sobre quem faz

Com a dispersão dos ideais positivistas, e o processo de industrialização consolidado, essa espécie de “tratamento reificado” se exacerbou. O indivíduo em seu labor, além de continuar sem qualquer privilégio, não mais domina todas as etapas daquilo que produz e passa a ser meramente uma peça de uma máquina composta por várias engrenagens. No caso da realidade brasileira, ainda devemos somar todas as consequências da colonização e do longo período escravocrata que perduram até os dias de hoje, em um processo de modernização contraditório e excludente. Outro aspecto relevante é considerar o modelo de superprodução, a indústria cultural, o consumo fetichista e a “separação” das pessoas como características de uma cultura hipermoderna, ou pós-moderna, que se sustenta em uma dinâmica de produção e consumo que domina todas as esferas da vida. Assim, seguindo a ânsia da própria estrutura em otimizar para obter um fluxo astronômico, o sujeito, agora, precisa agir sem pensar, ou pensar sem profundidade. Nessa lógica hipermoderna de organização laboral, em contraponto à proliferação predatória das multinacionais em uma estrutura global economicamente injusta, muitas comunidades, famílias e entusiastas mantiveram vivas antigas práticas artesanais e suas técnicas. Dessa forma, podemos pensar, por assim dizer, que, ao menos em grupos que não perderam quase todas as coisas (como a terra, a liberdade de escolha e a sua tradição cultural), que algo essencial conseguiu ser mantido ou ressignificado. Na realidade, esse contraponto nos revela a existência de outras formas de compreender a cultura e o trabalho em sua dimensão massificada: apesar de todo o domínio do pop, o é folclore nunca se perde, é como um ato constante de resistência, como aquilo que é fundamental para emprestar um sentido para a vida que precisa existir. 

Os ateliers e oficinas, bem como diversas comunidades tradicionais que ainda hoje conservam processos milenares de manipulação da matéria, representam uma força que permanece. “Viver de arte” não é fácil quando não se está no mainstream. Do mesmo modo, em termos econômicos, como poderia a produção familiar concorrer com a escala industrial? Pelos parâmetros econômicos produtivos da atualidade, muitas oficinas e ateliers tornaram-se inviáveis com a constante redução das demandas, fazendo com que mais e mais trabalhadores “autônomos” sejam reposicionados em camadas sociais mais pobres. Por isso o sujeito, que outrora se via na identidade de sua profissão, é obrigado a migrar para compor uma massa de operariado, integrando, até mesmo, a fila dos desempregados. Toda essa movimentação social representa muito mais que o desmantelamento do sujeito, ela agride diretamente nossa identidade cultural, é o desmonte das culturas regionais pela imposição de um modelo globalista violento de produção. 

Por outro lado, apesar de todos os aspectos negativos referentes ao trabalho na contemporaneidade, existem certos setores da sociedade que buscam e valorizam produtos e produtores artesanais, produzidos fora da lógica massiva e seriada. Obviamente, são movimentos que partem de uma parcela intelectualizada que venta novas propostas, mesmo que num sentido mais profundo e efetivo sejam altamente questionáveis. No entanto, esta preferência, carrega certos valores que são coerentes e condizem com uma perspectiva humanista sobre o trabalhador e sua atuação. 

Em verdade, a crise que enfrentamos agora no campo conceitual sobre o trabalho, exige repensar tudo aquilo que já foi tentado anteriormente, afinal de contas, o questionamento sobre o “contraditório”, citado no primeiro parágrafo, é determinado por nós mesmo, e não é possível se abster. Se, por um lado, a evolução biológica nos deu a inteligência, por outro ela não determinou seu uso, nossas atitudes e suas consequências. Levando em consideração os rumos de nossa reflexão traçados nesse artigo, o aprimoramento coincide com a própria cultura, e é justamente nesse sentido que precisamos nos questionar, pois perder quase todo o tempo de vida em atividades fragmentadas e desvalorizadas, não condiz com o potencial de realização e dignidade humana. 

Nesse sentido, o trabalho familiar, ou em microescalas, pode salvar não somente o sentido existencial do indivíduo diante da necessidade do trabalho, mas, também, mudar os rumos da relação humana com os recursos da Terra.

Referências Bibliográficas 

ADORNO, T. W.; HORKHEIMER, M. Dialética do Esclarecimento – Fragmentos Filosóficos. Tradução: Guido Antonio de Almeida. Zahar. Rio de Janeiro, 1985. 

ADORNO, T. W. Educação e Emancipação. Tradução: Wolfgang Leo Maar. Paz e Terra. Rio de Janeiro, 1995.

DEBORD, G. A Sociedade do Espetáculo. Tradução: Estela dos Santos Abreu. Contraponto. Rio de Janeiro, 1997.

DIAS, G. F. Ecopercepção. Gaia. São Paulo, 2004.

PINTO, A. V. Ciência e Existência – Problemas Filosóficos da Pesquisa Científica. Paz e Terra. Rio de Janeiro, 1969. 

SHELDRAKE, R. O Renascimento da Natureza – O Reflorescimento da Ciência e de Deus. Tradução: Maria de Lourdes Eichemberger e Newton Roberval Eichemberger. Cultrix. São Paulo, 1997.

VASCONCELLOS, G. F. A Questão do Folclore no Brasil: do Sincretismo à Xifopagia. EDUFRN. Natal, 2009.

Fotografia analógica: uma experiência caseira

A fotografia, antes de consolidar-se enquanto linguagem artística, surgiu como um experimento científico. Não por menos, seus processos envolvem uma série de reações físico-químicas. Por isso, dedicar-se a fazer fotografias “à maneira clássica” exige muito mais que um tino estético sobre composição. Um método é fundamental.


Com o advento e popularização das câmeras digitais, a fotografia analógica perdeu espaço. Atualmente, pode ser considerada antiquada e um tanto complexa de se realizar. No entanto, ainda existem pessoas que mantêm viva essa prática, e que encontram, na materialidade das técnicas fotográficas, um meio de experimentação e expressão artísticas. O grande desafio é viabilizar e renovar o sentido da tecnologia que revolucionou a produção de imagens.
Sobre esse assunto, conversamos com o artista e educador Guilherme Portes que atuou ativamente na produção fotográfica nos últimos anos e realizou revelações em seu próprio apartamento.

O artista Guilherme Portes encontrou na fotografia analógica uma potente força de expressão.

MAOB: Fale um pouco sobre você e de como surgiu seu interesse pela arte, especialmente a fotografia. 

Guilherme: Nasci em uma cidade com menos de vinte mil habitantes, Divino, na Zona da Mata Mineira. Tive a sorte de crescer no interior brincando na rua e cercado por natureza. Meu avô trabalhava na roça e gostava muito de caminhonetes modelo F-75. Quando sobrava algum dinheiro, ele costumava comprar desses automóveis para reformá-los e, depois, acabava revendendo. Eu e meu irmão brincávamos nestes veículos e, por várias vezes, acompanhamos nosso avô até os lugares onde ele iria negociar para tentar comprá-las. Além do passeio, também estávamos presentes no momento das reformas das carrocerias… E aqui está uma parte importante: eu gostava muito de ver o trabalho dos pintores. A precisão com que eles manipulavam os pincéis e as formas e cores que apareciam me deixavam encantado. Quando eu chegava a minha casa sentia muita vontade de desenhar… Não exatamente aquilo que tinha visto, mas sempre coisas que envolvessem, principalmente, combinação de cores. Acredito que este seja meu primeiro interesse estético envolvendo os elementos da arte – ao menos que eu consigo recordar… 

Agora, sobre fotografia, tenho na memória uma Instamatic da Kodak. Essa câmera pertencia a um tio, irmão da minha mãe. O aparelho, infelizmente, estava estragado quando tive conhecimento, ainda criança. Mesmo assim, tentei desmontá-lo em inúmeras ocasiões para ver se voltava a funcionar. Uma vez, até consegui que ela disparasse, mas nunca cheguei a consertá-la de fato. 

  Desenhei bastante na adolescência. Na casa de uma de minhas avós tem um terraço com uma paisagem linda. Um morro enorme. Ficava lá em cima por horas ilustrando o horizonte e imaginando o que poderia existir afora. Terminando o ensino médio, outro tio, irmão do meu pai, me convidou para morar em Juiz de Fora, caso eu tivesse interesse em tentar o vestibular. Inicialmente, concorri uma vaga para o curso de Letras na UFJF, sem sucesso. No ano seguinte, 2007, uma nova tentativa, desta vez para o curso de Artes que então, ingressei em 2008. 

Na faculdade produzi muito, principalmente pintura. Assim como a maioria dos estudantes, a grana era curta, mas eu sempre aproveitava materiais que sobravam das aulas e mesmo objetos encontrados no lixo, como pedaços de madeira, compensados, dentre outros. Logo em 2009, consegui realizar minha primeira exposição individual, no Pro-Música. Até então, somente trabalhos de desenho e pintura. Na época, posso dizer que nem tinha bons olhos para a fotografia. Uma espécie de pré-conceito que, hoje, nem consigo explicar.

Em 2011, finalmente me envolvi com a fotografia. Consegui uma bolsa no Centro de Educação a Distância (CEAD/UFJF) para fotografar e filmar. A princípio, não tinha interesse na bolsa, mas precisava do dinheiro para me manter em Juiz de Fora. Com a prática, comecei a pegar gosto pela fotografia e o audiovisual. Aproveitei para cursar disciplinas relacionadas no Instituto de Artes e Designer que, neste período, já possuía o curso de Cinema e Audiovisual. 

Coincidentemente, comecei a namorar uma garota que atuava com fotografia. Juntos, fizemos vários serviços como freelancers cobrindo eventos em geral. Mais uma vez a fotografia, de alguma forma, ajudava minha estadia na cidade grande. Quando terminou o meu vínculo com o CEAD, em 2013, consegui ser contratado pelo Serviço Social do Comércio (SESC) para trabalhar como professor de desenho e pintura. Um ano depois, me fizeram a proposta de inaugurar o curso de fotografia. Confiante da bagagem adquirida até então, aceitei. Daí para frente estava consolidada a presença desta linguagem artística em minha vida profissional.

MAOB: Sobre a fotografia analógica especificamente, quando e como isso começou?

G: Falando sobre uma primeira experiência prática, posso citar uma oficina de pinhole que fiz em 2010, com o fotógrafo paraense Dirceu Maués. Esse curso, na realidade, gerou em mim um primeiro apreço pela fotografia em geral. 

No momento que partilhamos um interesse, as coisas ganham mais força. Eu e esta namorada começamos a coletar e reunir as câmeras velhas que existiam em nossas famílias. Estávamos constituindo uma espécie de coleção e, ao mesmo tempo, dando um novo sentido para aqueles objetos que estavam esquecidos. Até aqui, praticamente não colocamos as câmeras analógicas para funcionar, era muito mais uma relação afetuosa por aquilo que elas representavam. 

Foi aí que, em 2015, passeando pela Praça 15, no Rio de Janeiro, encontrei, em meio à feira livre, um vendedor com algumas câmeras antigas. No meio de tantas, a que mais nos chamou a atenção foi uma Polaroid. Nunca tinha visto uma de perto. Era incrível aquela “câmera instantânea”. Queria levá-la e fiz um teste para ver se funcionava. Deu tudo certo e ainda restavam oito chapas dentro da câmera. Posso dizer que aqui começa a vontade de revelar. 

Outra câmera que foi um incentivo para o início das fotografias analógicas, foi uma Olympus Pen que estava no meio da nossa “coleção”. Não lembro bem como chegou até nós, mas, com certeza, foi mais uma herança vinda de alguma parte de nossas famílias. Ela literalmente multiplicou a vontade de fotografar com filme. Fazia 72 fotos, porque “cortava” os frames ao meio – a câmara escura dela é metade do tamanho padrão.

MAOB: Você comentou sobre a vontade de revelar… 

G: Sim! A partir de 2014, minha produção com câmeras analógicas foi aumentando e progredindo. Ao mesmo tempo, as opções de laboratórios de revelação em Juiz de Fora eram escassas. Nessa época, ainda existia o Fuji Filme, na Rua São João, e o Zé Kodak. Além disso, nesta era imediatista onde quase tudo é “terceirizado”, residia em mim, uma vontade de participar e dominar integralmente as etapas do processo fotográfico. 

  Em 2016, fui para Santos Dumont ministrar uma oficina de pinhole a pedido do SESC. Nessa ocasião, conheci o fotógrafo Erik Weitzel que também participaria do evento e estava responsável pela parte das revelações. E assim se deu o meu primeiro contato direto com a revelação. Eu e Erik trocamos muitas ideias e, desse encontro, nasceu uma amizade. Comecei a pesquisar bastante sobre a prática e a pensar uma maneira de viabilizá-la. Foi então que essa possibilidade tornou-se definitiva: meu amigo recente resolveu me presentear com alguns químicos e papéis fotográficos velhos. Nesse mesmo período, ganhei também um ampliador. A esta altura, faltava apenas o lugar… 

Em meu apartamento, no bairro Granbery, havia um quartinho nos fundos, junto à área de serviços. Esse foi o local onde improvisei e construí minha “sala escura”. Cuidadosamente, fui escolhendo e decidindo os materiais necessários para estruturar um micro laboratório. Bastante obstinado, em poucos meses consegui montá-lo e iniciar as primeiras revelações e ampliações. 

2017 foi o ano de maior produção. Aprendi a revelar com caffenol que é uma técnica alternativa que utiliza materiais baratos e facilmente encontrados. Não é um resultado profissional, mas a qualidade atendia bem minhas pretensões. O mais importante era participar e dominar o processo… Ver algo se materializar diante de si e por consequência imediata da sua ação e pensamento. Passei longas horas dentro deste quartinho. Não podia abrir a porta, ou correria o risco de estragar tudo que estava sendo feito. Levava tudo que ia precisar: comida, bebida… Era uma necessidade de fazer e que precisava acontecer como desse.  

Pude aprender e criar muitas coisas… No “laboratório” fiz muitas fotografias sem câmera fotográfica. Essa era uma das experimentações que eu priorizava. A ideia era explorar justamente os componentes materiais da revelação. As reações químicas do papel e das soluções; os efeitos físicos da luz, das sobreposições… Um dos trabalhos que desenvolvi, eram ampliações de slides antigos de aulas de ciências que foram descartados pelo SESC. A série de montagens que produzi com imagens de anatomia humana foram expostas no Espaço Reitoria da UFJF, em outubro de 2017, na mostra Embate ao Fascismo – 80 Anos de Guernica. No ano seguinte, junto com Erik e seu irmão, Christian, também fotógrafo, promovemos o “Rolê analógico”, um encontro aberto que acontecia nas ruas de Juiz de Fora com intuito de divulgar e incentivar a prática da fotografia analógica.  

Mantive um fluxo razoável de produção até me mudar para Portugal, em 2019. Trabalhava no SESC todos os dias, mas sempre aproveitava os horários livres e finais de semana para me dedicar à revelação. Expandir meus conhecimentos rumo à integralidade deste processo de construir imagens, pôde me aproximar um pouco mais do que eu queria enquanto possibilidade de expressão.


Sobre o entrevistador:

Francisco Faulhaber é é professor de arte e filosofia e coordenador de pesquisa do Museu de Artes e Ofícios Bodoque de Juiz de Fora.

Depoimento #005 – Daniel Rodrigues. Artista

Bodoque Artes e ofícios Museu de Artes e ofícios Bodoque

Este é um pequeno trecho, já processado, da entrevista de documentação de história oral para o acervo digital do Museu de Artes e ofícios Bodoque (MAOB/Bodoque Artes e ofícios).

Convidado: Daniel Rodrigues
Responsável pela entrevista: Frederico Lopes

Captação do depoimento: Leonardo Morais

Condução da Entrevista: Leonardo Morais

Depoimento #002 – Roberto Louzada. Alfaiate

Bodoque Artes e ofícios Museu de Artes e ofícios Bodoque

Este é um pequeno trecho, já processado, da entrevista de documentação de história oral para o acervo digital do Museu de Artes e ofícios Bodoque (MAOB/Bodoque Artes e ofícios).

Convidado: Roberto Lage Louzada
Responsável pela entrevista: Francisco Faulhaber

Captação do depoimento: Leonardo Morais

Condução da Entrevista: Leonardo Morais

Depoimento #001 – Tarcísio Louzada – Alfaiataria

ENTREVISTA #001 – Alfaiataria – Ofícios do fio

Bodoque Artes e ofícios Museu de Artes e ofícios Bodoque

Este é um pequeno trecho, já processado, da entrevista de documentação de história oral para o acervo digital do Museu de Artes e ofícios Bodoque (MAOB/Bodoque Artes e ofícios).

Convidado: Tarcísio Lage Louzada
Responsável pela entrevista: Francisco Faulhaber

Captação do depoimento: Leonardo Morais

Condução da Entrevista: Leonardo Morais

O Museu e seu entorno como território educador

Na etimologia da palavra Museu, do latim MUSEUM, derivado do grego MOUSEION, reportamo-nos ao que é “próprio das musas”. Da semiologia da expressão, temos por entendimento a referência básica ao Templo, ou seja, onde residem as musas e divindades gregas que inspiravam diversas formas de arte. Outrossim, esta definição, embora seja o alicerce fundamental para o entendimento das atividades de um museu na comunidade em que está inserido, não deve nos impedir de analisar com atenção as transformações no tecido social que trouxerem outras maneiras de compreender a atuação do Museu em nossos dias.

Muito além de salvaguardar seus acervos e comunicá-los, os museus, desempenham um papel importante e estratégico para transformação social. E a educação ocupa lugar de destaque nesse aspecto.

Entendendo os objetos museológicos e as narrativas expográficas como ferramentas de trabalho, a divisão de educação, ou o setor educativo de um museu, tem como principal papel atuar como um agente facilitador nos processos experimentados pelo visitante diante do acervo. Por este motivo, a maior parte do trabalho de um educador em um museu consiste em criar estratégias de mediação que proporcionem ao visitante autonomia sobre o conhecimento que deseja construir. Por isso, se faz necessário constituir e consolidar abordagens que investiguem as instituições com ênfase nos objetos museológicos, no espaço arquitetônico, e área do entorno, buscando proporcionar uma experiência única de vivência e aprendizado para o público. 

Com relação a mediação, um método que se apresenta como relevante caminho ao educador de museu é a busca por explorar a potência dos conceitos que os itens do acervo carregam, especialmente a partir de observações feitas pelo próprio visitante. Deste modo, o mediador trabalha com as possibilidades de interpretação, que retiram o visitante de sua posição de mero expectador e o traz para o centro deste processo. Por este motivo, existe uma dedicação especial nas pesquisas realizadas pelo educativo de um museu em desenvolver abordagens que vão além das características elementares da instituição, propiciando aos interlocutores inquietações que permitam a compreensão de contextos políticos, sociais, culturais e até mesmo acerca das predileções estéticas que cada indivíduo carrega consigo.

Portanto, em espaços não formais de educação, os processos tendem a ser mais abertos e as estruturas menos rígidas na dinâmica de ensino e aprendizagem. Isso ocorre porque é fundamental se apropriar da ideia de que a experiência museológica, ou seja, o ato de se adentrar em um museu e estar presente durante este processo, prevalece em relação à mera explanação de informações, privilegiando a experiência do visitante ao espaço como prática libertadora de aprendizagem. 

Sendo assim, é interessante pensar que, muito além de um templo onde repousam as musas adornadas por sacrifícios intelectuais, o museu sinaliza um território educador, como um marco no tecido urbano da cidade, que anuncia a extensão de suas práticas à dimensão humana de cada indivíduo.

Uma conversa com a Educadora Juliana Prado sobre sua atuação no Museu Casa do Pontal

Você conhece o Museu Casa do Pontal? Localizado no bairro Recreio, no Rio de Janeiro, ele é considerado o maior e mais significativo museu de arte popular do país. As obras que estão sob sua guarda nos mostram como a realidade local pode influenciar diretamente no fazer artístico. Seu acervo nos permite estabelecer relações muito claras entre poética, materialidade e território, já que muitas dessas obras retratam a partir do barro e da madeira, cenas do cotidiano desses mestres de arte, artesãos e artífices, que emergem de um contexto onde a arte significa, sobretudo, uma forma de trabalho, um ofício.

Tivemos a oportunidade de conversar com a arte educadora Juliana Prado Teixeira, que atuou como coordenadora educacional da Casa do Pontal do ano de 1998 a 2015, e atualmente atua no Museu eventualmente na formação de mediadores para exposições. O educativo da instituição conta com visitas teatralizadas educacionais, seminários, oficinas, atividades em escolas, formação continuada e publicações direcionadas, e teve seu trabalho reconhecido através do Prêmio “Amigo das Escolas”, concedido pela Secretaria Municipal de Educação (2002), pela Menção de Destaque para o Programa Educacional e Social no Prêmio Somos Patrimônio (2008) e pela Menção Honrosa no Prêmio Darcy Ribeiro de ações educativas em museus, concedida pelo Departamento de Museus do Iphan (2008).

MAOB – Na sua visão, qual a importância da preservação e difusão de acervos que carregam narrativas sobre a cultura popular brasileira?

Juliana – Bem, é importantíssimo pra nossa formação saber de onde viemos, como interferimos no planeta, rever nossas experiências bem ou mal sucedidas. Isso nos dá um sentimento de pertencimento a determinado grupo. Nos traz auto-confiança, auto-estima, noção do coletivo, resgata afetividades, autoconhecimento e criatividade para lidar com os desafios da vida. E no caso da cultura popular, que nasce nas camadas menos favorecidas da sociedade, isso é essencial porque demonstra que a cultura está em toda parte, independente de fatores econômicos e sociais. Esse reconhecimento da importância da cultura popular é essencial para a formação de uma sociedade justa, igualitária, criativa e colaborativa.

MAOB – Que postura a ação educativa museal deve assumir para contribuir efetivamente no respeito e conhecimento da diversidade cultural brasileira?

Juliana – Ela deve assumir uma postura dialogal com o visitante e principalmente com os estudantes. Porque através do diálogo você pode fazer links interessantíssimos de elaboração cognitiva do acervo e da visita. Uma visita ao museu pode se transformar numa “experiência inesquecível”. E até mesmo abrir portas para transformação de vidas. Claro que quando a gente vai dialogar com alguém é necessário que estejamos com a mente e o coração abertos e que estejamos atentos para perceber que tipo de linguagem e conversa podemos desenvolver, sem pré-conceitos e preconceitos. Cada público é um público, cada estudante é um estudante, o indivíduo e o coletivo, o uno e o todo. E precisamos estar com uma escuta bem ativa para podermos perceber o outro, suas necessidades e afetividades. Acolhimento, escuta e afeto são palavras-chaves para um bom trabalho educacional no museu.

MAOB – A Casa do Pontal oferece visitas teatralizadas, você pode explicar quais são as diferenças deste tipo de visita e como ela surgiu?

Juliana – A visita teatralizada utiliza a linguagem teatral para fazer instigações a fim de contextualizar as obras através de versos, músicas, danças e dramatizações. Muitas vezes essas linguagens artísticas despertam memórias afetivas que nos permitem criar sentidos relacionados ao acervo. Sentidos tanto individuais como coletivos. Nós só absorvemos o aprendizado quando ele faz sentido pra gente, nem que ele seja imaginado, ou seja, quando elaboramos e participamos ativamente da criação do conhecimento. Aí aprendemos de fato. No caso da arte popular é muito fácil criar sentido porque é uma arte de comunicação muito direta, mas mesmo assim é importante que o público possa criar e elaborar seus próprios sentidos, num diálogo permanente entre eles e com o acervo.

A visita teatralizada foi criada ao percebermos que o acervo do museu nos remetia a versos, músicas e histórias da cultura popular que praticamente surgiam das obras por elas mesmas. Como se as esculturas falassem, dançassem, cantassem. A cultura brasileira é muito rica e diversa. E a arte está presente muito intensamente nas nossas vidas. A linguagem teatral é muito dialogal, é viva, em ebulição, ao mesmo tempo diáfana e transformadora. O teatro é livre para quebrar estereótipos, permitindo que o público se veja, muitas vezes, criando novos papéis para si e elaborando novas possibilidades para a resolução de problemas. Abre as portas da criatividade.

MAOB – O trabalho aparece com frequência como tema nas obras do Museu, por que você acha que existia esse interesse em retratar as profissões?

Juliana – Porque, como dizia Jacques Van de Beuque, o criador do museu, “o povo brasileiro está sempre trabalhando”. O trabalho está no dia-a-dia de todo mundo. Ele é muito importante no imaginário social. Ter um ofício ou uma profissão nos torna cidadãos reconhecidos socialmente. Até mesmo na hora de festejar e se divertir o trabalho aparece. A cultura popular tem sua complexidade também, sua elaboração, sua organização, mesmo que possa parecer, a princípio, caótica. Isso requer trabalho. Nas festas populares, por exemplo, existe uma quantidade enorme de pessoas trabalhando para sua realização. Nas danças, nas indumentárias, na música, na culinária, nos cenários, etc… Às vezes, a comunidade inteira está envolvida nessa produção. De modo que o trabalho, a arte e a criatividade andam juntos, não tem separação, não tem gavetinhas, é tudo misturado no dia-a-dia com muita alegria e colaboração.

MAOB – Ao relembrar sua longa jornada enquanto educadora no Museu Casa do Pontal, imagino que venham muitas memórias de afeto das experiências de mediação vivenciadas ali. Existe alguma que se destaca? Por quê?

Juliana – Realmente, foram 18 anos de aprendizado constante, muita afetividade, muitas descobertas, muita troca com os estudantes, professores, pessoal das organizações e projetos sociais, seminários, atividades e exposições fora do Museu, até em outros países. Uma experiência transformadora para mim, como pessoa e como educadora. É muito difícil citar uma única experiência, ainda mais assim rapidamente. As pessoas voltam ao Museu, muito tempo depois perguntando sobre determinada música, artista que conheceu ou versos e atividades feitas. Sempre querem voltar, trazer um amigo, um parente. Muitos relatos de portas que se abriram. Me lembro de uma menina que saiu de uma visita e comentou, “puxa, não sabia que eu era tão importante pra ter um museu sobre as minhas coisas…” E aí você vê o que pode ser “uma experiência inesquecível”.