Sobre a história de Juiz de Fora

por: Poliana Vieira Côrtes Lopes

Em 1836, o engenheiro alemão Heinrich Wilhelm Ferdinand Halfeld, então engenheiro-chefe da província de Minas, foi encarregado da construir a Estrada do Paraibuna,  que iria de Ouro Preto ao Rio de Janeiro. Halfeld acabou se estabelecendo na região, entre as margens dessa Estrada, onde se formou o arraial de Santo Antônio do Paraibuna, povoado que, mais tarde, daria origem à cidade de Juiz de Fora. Em 1850, o arraial foi emancipado de Barbacena e elevado à categoria de vila, passando a se chamar Villa de Santo Antônio do Parahybuna; depois, em 1856, a cidade mudou de nome para Juiz de Fora, em homenagem a um ilustre desconhecido. 

Já o surgimento deste nome tão característico – Juiz de Fora – gera muitas dúvidas no que diz respeito à sua origem. Duas teorias herdadas por Lindolfo Gomes e Albino Esteves, relatam que “Juiz de Fora” era uma expressão utilizada para se referir à um magistrado, do tempo colonial, nomeado pela Coroa Portuguesa, para atuar onde não havia Juiz de Direito. A outra teoria diz que um “juiz” (magistrado) de fora (não habitante da cidade) esteve de passagem na região e hospedou-se por algum tempo numa fazenda, chamada “Fazenda Velha” e que, mais tarde, próximo à ela, surgiria o povoado de Santo Antônio do Parahybuna. Outros historiadores, como Roberto Dilly, acrescentam que este tal “juiz de fora”, depois de uma briga no Rio de Janeiro, se mudou para a região e a sede da fazenda que ele construiu ficou conhecida pelo nome de seu cargo, algo comum para a época. Depois de se desentender com moradores, o magistrado teria se mudado novamente, mas para São João Del Rei, destruindo a visão romantizada da história.

Essa discussão é tão antiga quanto a cidade. Paulino de Oliveira afirma que o dr. Joao Penido, um dos pioneiros da cidade, ouviu de seus antepassados que um prêmio de duzentos contos de réis foi oferecido para quem desvendasse tal mistério. (OLIVEIRA, 1966, p.15). Provavelmente, ninguém recebeu essa quantia, visto que, até os dias de hoje, não há certeza quanto à origem do nome.

Devido à proximidade dos pioneiros da cidade com a família imperial, trouxe privilégios e desenvolvimento à região. A Estrada de Rodagem União Industria, por exemplo, que liga Petrópolis a Juiz de Fora, foi a primeira rodovia macadamizada da América Latina. A concessão para a construção e custeio da Estrada ficou a cargo do cafeicultor Mariano Procópio Ferreira Lage, organizador da Companhia União e Indústria. Tal companhia encampou grande parte da Estrada do Paraibuna, construída sob as ordens do engenheiro alemão, naturalizado brasileiro Henrique/Heinrich Halfeld, que também, nesse empreendimento, seria o responsável pelas obras do trajeto feito para encurtar a viagem e escoar a produção de café da região com mais facilidade. Dessa forma, foi inaugurada por Dom Pedro II em 1861. (STEHLING. 1979, pp. 144, 122-123.)

Por conta da importante conexão comercial estabelecida pela estrada, a cafeicultura, que se desenvolveu ao redor de Santo Antônio do Paraibuna, transformou a Vila no principal núcleo urbano da região. Nela, a produção das fazendas se concentrava para ser transportada e comercializada na Corte, na cidade do Rio de Janeiro. Posteriormente, na década de 1870, o encontro da Estrada de Ferro Dom Pedro II com a Estrada União Industria, também colaborou com o desenvolvimento e enriquecimento da região. Com esses meios de escoamento da produção, o plantio de café na Zona da Mata cresceu muito, e Minas Gerais se tornou uma grande província cafeeira

Outro acontecimento vanguardista, foi a inauguração da luz elétrica, idealizada e desenvolvida principalmente por Bernardo Mascarenhas – “empreendimento notável que, mais uma vez, veio colocar a cidade na vanguarda das cidades brasileiras”.(OLIVEIRA, 1966, p.113). Por esse motivo, em curto espaço de tempo, a região colecionou notáveis avanços. Em 1887 surgiu a primeira fábrica têxtil movida a eletricidade, em seguida, foi fundada a Companhia Mineira de Eletricidade, e, um ano depois, em 1889 foi construída a Usina Hidrelétrica de Marmelos, a primeira da América Latina. O pensamento visionário de Mascarenhas também propiciou iluminação pública movida à energia elétrica, iniciativa pioneira na América Latina. Infelizmente, o período de prosperidade na região não demorou muito a declinar, e, já na segunda década do século XX, a cultura do café se encontrava bastante desgastada na Província. Desse modo, a crise do café fez com que houvesse uma mudança de paradigma da cidade de Juiz de Fora, o que ocasionou um crescimento nos setores da indústria e da construção civil.

 IMIGRAÇÃO 

A cultura brasileira, e em especial a da cidade de Juiz de Fora, teve influência direta dos imigrantes que se mudaram para a região. É importante perceber que, partir de 1850, o governo do Império passou a incentivar a vinda de imigrantes para o Brasil. Isso ocorreu por conta de vertentes abolicionistas que já existiam em terras brasileiras desde a Independência. 

Em alguns países latino-americanos a abolição esteve diretamente ligada à própria noção de liberdade civil, pois não havia grandes interesses materiais na escravidão.  Já  “O Brasil e os Estados Unidos se encontravam em oposição àqueles, pois, ao se tornarem independentes, suas riquezas repousavam na mão-de-obra escrava.”(SILVA, 1975, P.55) No entanto, o problema norte-americano foi resolvido de forma violenta e abrupta, em decorrência da Guerra de Secessão   Hélio Silva afirma que antes de acabar com a escravidão, o Brasil procurou acabar com os Escravocratas, com propagandas e apelo por parte dos abolicionistas, poetas, e escritores.

De todo modo, com a proibição do tráfico negreiro, por consequência da Lei Eusébio de Queirós, a imigração foi uma opção do Imperador Dom Pedro II, e, entre os seus principais objetivos, estava o povoamento de regiões vazias, a valorização das terras, que seriam ocupadas pelos imigrantes, e a produção de alimentos que pudessem abastecer as lavouras de café. (JÚNIOR, 2014, p. 31)

O historiador Antonio Gasparetto Jr. (2014) afirma que o Império pagava pessoas para fazer uma espécie de propaganda favorável para o Brasil no exterior, com o intuito de incentivar a imigração de cidadãos europeus. Nesse sentido, também haviam propagandas de companhias de navegação específicas em troca de uma porcentagem sobre cada imigrante. O autor afirma, ainda, que, mesmo assim, o fluxo migratório teve um desenvolvimento lento no Brasil, condicionado por fatores políticos nacionais e internacionais, “iniciando-se com a extinção do tráfico e, passando, depois, pela abolição, pelas crises econômicas do Brasil e [posteriormente] pela Primeira Guerra Mundial.” (JÚNIOR, 2014, p.35) 

IMIGRACAO ALEMÃ

Em Juiz de Fora, grande parte das transformações políticas se deram, primeiramente, através das iniciativas de Mariano Procópio Ferreira Lage, que em 1855 conseguiu empréstimos para a introdução de colonos alemães na cidade para a construção da estrada União e Indústria, juntamente com suas famílias, artífices de diversos ofícios, entre eles: mecânicos, fundidores, ferreiros, carpinteiros, marceneiros, pedreiros, pintores, oleiros e etc. Além desses, foram contratados na França e Alemanha engenheiros e arquitetos para chefiarem a construção. (STEHLING, 1979, pp. 144, 122-123). Dentre os imigrantes que vieram durante esse período, vários constituíam importante posição técnica, formando mão-de-obra especializada. Eram técnicos engenheiros, arquitetos e, após 3 anos, 20 artífices, como ferreiros, pintores, latoeiros foram trazidos. Em 1857, chegaram mais 1.162 imigrantes alemães, correspondendo a 20% da população total da cidade. Este grande grupo foi instalado em uma vasta área, nomeada Colônia D. Pedro II, correspondendo hoje aos bairros de São Pedro, Borboleta e parte do Fábrica, loteado por Mariano Procópio e negociado como incentivo para a vinda dos imigrantes. A maioria deles foi designado para trabalhar nas plantações de café. Na ocasião, a intenção era colocar em prática um “projeto agrícola, que visava criar trabalho, alternativo à atividade escravista, na produção de bens de consumo interno, na ‘regeneração’ da agricultura e promoção da ‘civilização’ do país” (BORGES, 2000, p.90). Mas a colônia não conseguiu se manter por muito tempo, a ausência de mercado para os produtos plantados se associava à falta de incentivos para sua manutenção. Além disso, eram muitas as dificuldades com relação à língua, costumes, religião e início das primeiras roças. Desse modo, muitos colonos foram abandonando suas terras e se fixando na cidade, somando-se àqueles trabalhadores braçais, operários, ligados à Companhia União e Indústria. 

Por consequência disto, os alemães foram aos poucos se integrando às atividades urbanas, pois, “com o fim das obras da rodovia, a maioria dos colonos já tinham se erradicado em Juiz de Fora. Alguns aproveitaram as poupanças conquistadas ao longo dos anos  para se associarem, montando pequenas fábricas, ou estabelecendo-se no ramo comercial e de serviços” (JUNIOR, 2014, p.63), apesar de esses casos serem mais específicos. Sendo assim, muitos imigrantes se tornaram então, carroceiros, sapateiros, marceneiros, operários, pedreiros, fabricantes de cerveja e etc, contribuindo diretamente para o desenvolvimento e crescimento industrial da cidade junto à população local. 

IMIGRAÇÃO ITALIANA

Os italianos têm sua presença marcada na cidade desde a década de 1860, quando o crescimento de Juiz de Fora atraiu um número significativo de imigrantes, que se fixaram de forma espontânea na região. Muitos deles eram “artesãos ou proprietários de pequenas oficinas, onde, de uma forma doméstica, manufaturavam e comercializavam seus próprios produtos; eram eles funileiros, sapateiros, marceneiros, latoeiros, etc.” (CHRISTO, 2000, p.136)

Cerca de duas décadas mais tarde, às vésperas da Abolição da Escravatura, os fazendeiros e empresários do país aproveitam a oportunidade de conseguir contratar uma abundante mão-de-obra, sem o custo das passagens de navio – uma vez que o governo imperial tomou para si a responsabilidade de trazer os trabalhadores. A Lei Áurea ainda não havia sido assinada, mas a Lei do Ventre Livre e a Lei Dantas já existiam e, por esse motivo, a população escravizada diminuía consideravelmente. Segundo Hélio Silva “quanto ao problema abolicionista, os republicanos só se comprometeram fortemente, por volta de 1887, quando o presidente do Partido Republicano Paulista, Campos Sales, resolveu fazer em Santos uma conferência a favor da liberdade dos negros.” (SILVA, 1975, p.47) 

Coincidência ou não, os imigrantes italianos chegaram na cidade, de forma organizada, em 1887, e, no ano seguinte, dois importantes contratos foram assinados entre a Associação Promotora da Imigração e o Governo Imperial. Por força desses documentos, “a Associação se comprometia a, inicialmente, introduzir 30.000 imigrantes na província e, posteriormente, 25.000, no Sul de Minas. Desses imigrantes grande parte era de origem italiana”. (CHRISTO, 2000, p.130), Em Juiz de Fora, Bernardo Mascarenhas criou uma das principais fábricas de tecido da região, denotando sua visão capitalista de vanguarda. Além disso, Mascarenhas formou, juntamente com barões e grandes fazendeiros, a Associação Promotora da Imigração acima citada, não só para obtenção de mão-de-obra barata para a lavoura, mas também para a indústria.

Com  grande afluxo de imigrantes na região, a necessidade de abrigar todas essas pessoas fez com que fosse criada  na cidade a Hospedaria Horta Barbosa, distante do centro, localizada na fazenda Tapera (onde hoje é o bairro Santa Terezinha). O prédio construído para os imigrantes, foi incorporado ao 2º Batalhão da Polícia Militar, que existe até os dias de hoje. Em 1888, criou-se, para normatizar o funcionamento da hospedaria, uma Inspetoria Geral de Imigração. Por meio dela, segundo Maraliz de Castro, os recém chegados teriam o direito de ficarem hospedados por 10, até que assinassem os contratos com os empregadores, além de terem as passagens asseguradas para todos os membros da família. 

Muito embora tenha havido um esforço institucional para suprir as necessidades dos imigrantes, os resultados da Imigração Subvencionada foram aquém do esperado, e, ainda em seu primeiro ano de funcionamento, a Inspetoria em Juiz de Fora foi fechada, fazendo com que muitos imigrantes começassem a reivindicar autonomia e terras. No dia 30 de dezembro de 1888, o jornal “O Pharol” registrou que “Os imigrantes que se acham na Hospedaria, cerca de 1.000, declaram que se retirarão dali, se o governo não lhes der terras, onde possam estabelecer um núcleo por conta própria.” ( VER CITACAO DO JORNAL – P. 131). Com o tempo, as condições de hospedagem ficaram mais precárias e a realidade que os imigrantes encontravam quando chegavam era bem diferente da propaganda dos agentes de imigração. Em um espaço com capacidade media de 500 pessoas, cerca de 2.000 imigrantes ficaram hospedados simultaneamente, sem acomodações necessárias e sem cuidados básicos de higiene, o que acarretou em surtos de doenças e indignação. Em 1889, uma epidemia de varíola provocou a suspensão da entrada de novos hóspedes, e o prédio foi fechado por cordão de isolamento sanitário. Em 1891 um novo surto de varíola assolou o local, deixando todos revoltados com a péssima condição em que se encontravam. Já em 1894 e 1895 foi a cólera que se espalhou entre os corredores e quartos do edifício. 

As disseminação de doenças trazidas da Europa na cidade foi um dos motivos de  tensão entre os moradores da região e os recém-chegados, que ansiavam por trabalho e uma vida melhor. Eles chegaram aos montes e se agarravam a qualquer oportunidade devido à alta concorrência. Entretanto, segundo a historiadora Maraliz, mesmo com todas as adversidades, eles preferiam permanecer na cidade.

“Embora Juiz de Fora esteja situada em zona de produção cafeeira e a ela deve parte de seu desenvolvimento, no momento da entrada de um segundo contingente mais numeroso de imigrantes italianos, a produção cafeeira não demandava de maneira significativa essa mão-de-obra, devido à permanência da maioria dos ex-escravos e o trabalho de diversas outras categorias de homens livres pobres, como peões, camaradas e agregados nas fazendas. Era a área urbana, com suas múltiplas atividades, que atraía aqueles que aspiravam uma vida melhor.”(CHRISTO, 2000,p.128)

É interessante notar que a cidade oferecia oportunidade de crescimento e de expansão dos negócios através de cooperação familiar ou até por criação de pequenas sociedades, que envolviam os próprios italianos. Prova disso é que no início do século XX foi registrado uma crescente participação italiana nos empreendimentos da cidade, que estavam em expansão, e o aumento do número de sociedades entre negociantes italianos e brasileiros. Nesse ponto, apesar da maioria dos empreendimentos serem oficinas pequenas, é possível constatar que houve também investimento dos imigrantes em fábricas, principalmente entre 1895 e 1921. Normalmente, tais categorias de negócios envolvidas, que eram fábricas de calçados, manteiga, fogos, couro, biscoitos bebidas, móveis e etc,  contavam mais com a força de trabalho, experiência e conhecimento dos proprietários do que com um investimento, significativo, em maquinário ou mão-de-obra. 

Ainda nesse contexto, alguns imigrantes se empenharam no ramo da indústria têxtil, “produzindo meias e malhas com maior nível técnico, mas ainda com poucos operários e maquinário. Outros, investiram na construção civil, atendendo às demandas do crescimento urbano.” (CHRISTO, 2000, p.137) Entre os trabalhadores napolitanos, muitos que possuíam nenhum tipo de curso ou conhecimento específico em alguma profissão, tampouco experiência técnica para montar seu próprio negócio. Logo, o proletariado da cidade cresceu ao receber esses trabalhadores para realizar tarefas braçais e operárias. 

Não há muitos estudos sobre os operários italianos em Juiz de Fora, mas pode-se encontrar algumas citações de incidentes, acidentes ou até uma greve de âmbito nacional que teve desdobramentos na cidade em 1912, e que durou cerca de 15 dias. As reivindicações dos trabalhadores eram, dentre outras coisas, a diminuição da jornada de trabalho, de 10 para 8 horas por dia. As categorias mais atuantes foram os sapateiros, tecelões e operários da construção civil. Este último setor possuía uma parte significativa dos operários de Juiz de Fora, associados aos setores têxtil, do vestuário e toucador. Diante da ameaça dos grevistas de abandonarem a cidade em busca de outro trabalho, grandes construtores, como Pantaleone Arcuri & Spinelli, Luiz Perry e Pedro Timponi, foram os primeiros a ceder às reivindicações.


Poliana Vieira Côrtes Lopes é artista, sócia e diretora de criação da Instituição Cultura Bodoque Artes e Ofícios. É mestrando do programa de pós-graduação Mestrado Profissional em Preservação e Gestão do Patrimônio Cultural das Ciências e da Saúde – Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz).

A visita à Museus como ponto de vulnerabilidade do sensível

por: Frederico Lopes de Oliveira Côrtes

Muito além de uma qualidade emocional, a sensibilidade pode ser entendida como uma capacidade perceptiva sensorial responsável por estabelecer conexões e inaugurar constructos complexos como compaixão, ternura, empatia, delicadeza e suscetibilidade. Falar de sensibilidade, e de formas de desenvolvê-la, envolve a compreensão de que a nossa percepção carece de cuidado, introspecção e precisa ser interpretada com profundidade.

Ao longo da história da arte, a representação visual ajudou a descrever traços fundamentais da condição humana, como a tragédia do fracasso, o esplendor do sucesso, a compaixão e a lucidez da mente humana na plenitude de suas virtudes ou a sua estupidez brutal quando se volta para o mal, (ARNHEIM, 2004, pág 243). Sob essa perspectiva, devemos considerar, ainda, que as concepções artísticas passaram por inúmeras mudanças estéticas, do figurativo ao abstrato, da pintura ao happening, que ajudaram a perscrutar a existência humana através de experiências multisensoriais inéditas. Essas mudanças oportunizaram aos fruidores a possibilidade de assimilar novas interpretações de suas vivências anteriores. No entanto, A produção do artista não é o fator determinante para o desencadear dessa reação em cadeia de reflexões, como afirma Rudolf Arnheim em seu livro Intuição e Intelecto na Arte

“não seria inteiramente correto creditar ao criador do objeto as ricas experiências criadas pela colaboração do ambiente ou da imaginação produtiva do observador. Todo objeto ou acontecimento nesse mundo pode atingir a mente humana com extrema profundidade, se as condições forem favoráveis.” (ARNHEIM, 2004, pág 245).

Sendo assim, ao presumirmos que existe no museu uma ampla rede de convergência atuando para que cada experiência possa ser aberta a significados que vão além, inclusive, das próprias referências carregadas pelo espectador até aquele momento, percebemos que existe algo que excede a mera criação e exibição de uma obra de arte. Isso significa que a experiência da arte requer uma visão mais holística e presente.  Por esse motivo, ao apreender a sensibilidade como uma potência de investigação das percepções humanas, buscamos, nesse texto, analisar o museu como um lugar que representa uma lacuna na vivência cotidiana, essa, sistematizada em rotinas pasteurizadas e, muitas vezes, alienadas de reflexão. Do mesmo modo, pretendemos sinalizar o museu como um espaço a ser preenchido com as possibilidades trazidas pelos visitantes, justamente porque o momento em que museu e espectador se tocam, temos o surgimento de experiências que são capazes de fragmentar a espessa carapaça de arquétipos cotidianos que performam a dessensibilização diária de nossas vivências.

O Museu-lugar

Uma instituição museológica se configura como um lugar que oportuniza experiências dinâmicas, com linguagens expográficas que estimulam a curiosidade e que alimentam o imaginário de seus visitantes. Muito além de sua definição conceitual (que, inclusive, atualmente encontra-se em discussão para reformulação através de ampla mobilização promovida pelo ICOM), e de suas narrativas temáticas, o “estar” em um museu determina uma abertura às possibilidades de percepção que, normalmente, passariam despercebidas no dia-a-dia nas cidades. É certo que toda e qualquer experiência, dentro ou fora do museu, carrega seu potencial transformador. No entanto, o museu abarca, em sua definição, a potência que pode despertar novos olhares do espectador sobre si mesmo, sobre a complexa e diversificada experiência de se estar vivo. Assim, entendendo a experiência como um fenômeno ininterrupto da condição existencial, (como afirma Dewey em Art as experience), o museu-lugar se configura como uma porta para conversão de experiências em práticas capazes de conectar alegorias estéticas e subjetividades de vivências individuais. 

Um ponto favorável ao estímulo da reflexão em um museu é o fato de que os objetos ali contidos e expostos passaram, necessariamente, pelo fenômeno da mudança de estatuto do objeto, transfigurando suas funções utilitárias cotidianas para novas categorias semânticas. Por exemplo, uma cadeira qualquer, utilizada por uma figura ilustre da história, em um museu, torna-se a cadeira onde decisões que mudaram o rumo da história foram tomadas. Sua função utilitária é substituída, nesse caso, por sua relevância enquanto patrimônio histórico. O mesmo ocorre com obras de arte. Uma obra de arte institucionalizada em um museu percorre campos semânticos que correm à revelia do autor, ou seja, se o artista criou sua obra de arte de forma que ela se complete na ação direta do espectador ou do tempo sobre ela, (sendo tocada, manuseada, ou se deteriorando por exemplo), ao se transfigurar em patrimônio, essa obra abandona parte de seu status-quo determinado pela filosofia da arte e passa a performar sua alegoria como patrimônio, portanto, alheia à ação danosa do espectador ou do tempo. É certo que no caso da arte essa mudança de categoria é um fenômeno mais sutil, especialmente por conta da ausência de uma função utilitária a priori a ser “substituída”, além de outras questões que não são pertinentes para esse texto. Vamos nos concentrar aqui em entender que o museu-lugar abriga uma intrigante oportunidade de repensar modos de olhar para as coisas, para cada objeto, cenário ou, até mesmo, para detalhes de sua estrutura fisíca/arquitetônica, e que a mudança de estatuto do objeto é um dos fatores que contribuem para o aumento da suscetibilidade desse desenvolvimento sensível.

O Museu-espaço

Ao mesmo tempo, o museu se configura como um espaço, uma ausente presença de corpos e conceitos do passado que abrem uma lacuna temporal no tecido urbano. Ao preencher esse espaço com a sua presença, o espectador também o ilumina com suas vivências e expectativas, com suas bases ideológicas e com sua carga emocional. Outra característica do espaço museológico é a possibilidade de esvaziamento das pressões e mecânicas cotidianas no momento da visitação. Para compreender melhor essa afirmação, façamos um breve exercício mental: vamos supor a seguinte situação – um aluno de uma escola pública X, com poucos recursos, situada na periferia de uma grande cidade, tem a oportunidade de, através de uma excursão, realizar uma visita à um grande museu. Na ocasião, o aluno, que reside com a mãe solteira e mais quatro irmãos em uma pequena casa mal acabada, também na periferia dessa cidade, leva um bilhete para ela pedindo autorização para ir à excursão. Ao assinar o bilhete, a mãe o autoriza a se deslocar para o museu junto com sua turma. No dia da excursão, o aluno inicia sua visita ao adentrar no ônibus, (na realidade, a visita se inicia no momento em que ele sai de sua casa). Quando finalmente chega ao museu, ele se depara com a imensidão do desconhecido. O teor de novidade em cada instante é tamanho, que até os materiais utilizados na construção da fachada do museu são motivo de atenção e comentários. Durante a visitação, um mediador fica a cargo de atuar como um facilitador do processo de experimentação desse museu, buscando costurar as potencialidades observadas pelos alunos com cada temática que orbita os itens desse museu. Ao terminar a visita, os alunos, em fila, retornam para o ônibus em direção à escola, e, em seguida, para suas casas.

Percebam que nesse exercício mental, o primeiro ponto a ser considerado é a transição estética que ocorre durante o percurso. O aluno sai de sua casa precarizada, (possivelmente alheio à própria vontade – uma vez que ele pode ter sido apenas o executor da ação de levar o bilhete da escola para casa, cumprindo uma burocracia necessária da instituição escolar), e se desloca da periferia para uma região “nobre”, onde se encontra o museu. Ao sair de casa para a escola e, em seguida, para o museu, aos poucos, pela janela do ônibus, a paisagem das casas incompletas, ainda sem o reboco, vão dando lugar à ruas mais bem pavimentadas, condomínios, lojas e casas mais sofisticadas. Ao chegar no museu, esse visitante encontra-se desarmado, deslocado não só de sua escola e de uma aula normal, mas de sua realidade social, econômica e estética. Esse é um momento nobre, onde as categorias analíticas desse individuo encontram-se em suspensão, levadas pelo vazio conceitual que esse novo espaço representa. Por esse motivo, o museu-espaço é o campo fértil, onde as associações livres serão feitas, imaginadas e recriadas.

O museu, o visitante e o educador

Essa explosão de estímulos sensoriais, parte do pressuposto de Serge Daney, descrito por Bourriaud em seu livro Estética Relacional, onde “toda forma é um rosto que nos olha”. (DANEY apud BOURRIAUD, 2009). O autor ainda completa sua reflexão apontando a nítida constatação de que “já que as formas nos olham, como devemos olhar para elas?”(BOURRIAUD, 2009, pág 29). Considerando essa colocação do autor, podemos projetar o instante da visita como esse ponto de fragilidade do sensível, o que faz com que o educador precise se apropriar de uma potencialidade de trabalho que tenha como ponto de partida a articulação de conceitos através das formas, cores, texturas, sensações táteis e pensamentos ventados pelos visitantes, criando um contexto propício à diversos tipos de experiencias, inclusive estéticas. Jean-Marie Guyau, em seu livro: A Arte do Ponto de Vista Sociológico, desenvolve um raciocínio onde o rudimento estético é um potencial vetor para produção de uma emoção estética, sendo essa caracterizada como a mais imaterial e intelectual emoção humana (GUYAU, 2009), portanto, um aspecto que carece de ser explorado pelo educador.

Por outro lado, para que a experiência museológica ocorra em um nível mais sensível, conectando as esferas estéticas e a subjetividade das vivências, como mencionamos anteriormente, é necessário entender que as experiências significativas, que podem ser mensuradas como transformadoras ou marcantes, dependem de forte carga emocional para se consolidar, como aprender a andar de bicicleta por exemplo. Nesse sentido, tudo o que toca a percepção é passível de ser trabalhado pelo educador, sendo matéria-prima para cumprir o objetivo de despertar a curiosidade e provocar reflexões que tornarão o interesse pelo espaço e pelo acervo cada vez mais latente. Nesse ponto, o museu também possui uma vantagem estratégica na indução de sensações e emoções em seus visitantes:

(…) O museu é o lugar em que sensações, ideias e imagens de pronto irradiadas por objetos e referenciais ali reunidos iluminam valores essenciais para o ser humano. Espaço fascinante onde se descobre e se aprende, nele se amplia o conhecimento e se aprofunda a consciência da identidade, da solidariedade e da partilha (…) (CÔRTES, 2019).

Outro aspecto relevante, é considerar que o visitante deve ser observado pelo educador enquanto ser cultural, ou seja, um indivíduo que também traz consigo experiências e vivências pessoais que devem ser reconhecidas como recursos a serem utilizados para ampliação das possibilidades de construção de um conhecimento sensível durante a visitação. Pierre Bourdieu, em suas categorias de capitais simbólicos, afirma que cada indivíduo reage de maneira diferente à estímulos estéticos, por conta de valores e apropriações provenientes de socializações primárias, construindo um repertório cultural que possibilita cada um de nós intuir acerca de valores estéticos ou culturais, que acabariam, ao fim, sendo utilizados como recursos de poder. Deste modo, Bourdieu sugere, em algumas ocasiões, que a cultura pode ser utilizada como veículo de mobilidade social (SILVA, 1995, pág, 28).

Portanto, o museu, através do educador, no momento da visitação, deve propor uma abordagem institucional que desloca o visitante de sua posição de mero receptor de informações/orientações acerca da instituição e acervo, para uma posição participativa, sendo estimulado a atuar ativamente na troca de conhecimentos inerentes às atividades do museu e da própria vida, buscando, de forma criativa, criar abordagens que apontem para a amplidão da vulnerabilidade do sensível no momento da visita. Assim sendo, o museu precisa exercer o seu papel de agente catalizador, promotor de ações educativas, poéticas e multisensoriais que apresentem diversos trajetos e possibilidades onde o visitante torna-se partícipe da construção do próprio conhecimento.

Referências
ARNHEIM, Rudolf. Intuição e intelecto na arte. São Paulo: Martins Fontes, 2 edição, 2004.

DEWEY, John. Art as Experience. New York, USA: The Berkley publishing group, 2005.

RANCIÈRE Jacques. A Partilha do Sensível: estética e política. São Paulo: EXO experimental; Editora 34, 2009.

BOURRIAUD, Nicolas. Estética Relacional. São Paulo: Martins Fontes, 2009.

GUYAU, Jean-Marie. A Arte do Ponto de Vista Sociológico. São Paulo: Martins Fontes, 2009.

CERBONE, David. Fenomenologia. Rio de Janeiro: Editora Vozes, 2006.

CÔRTES, Frederico Lopes. Base Epistemológica. Documento base da divisão de educação do Memorial da República Presidente Itamar Franco, 2019.

SILVA, Gilda Olinto do Valle. Capital Cultural, Classe e Gênero em Bourdieu. INFORMARE – Cacto Prog. PÓs-Gract. Ci. 1nf., v. L n.2, p.24-36, jul./dez. 1995 ECO/UFRJ – IBICT/Cnpq. 


Frederico Lopes de Oliveira Côrtes é artista e educador, graduado em artes pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), especialista em gestão cultural pela FAGOC. Possui treinamento profissional em conservação e restauro de papel pelo LACOR/MAMM-UFJF. Atuou no setor de curadoria e expografia do Museu de Arte Murilo Mendes de 2013 a 2017. Integrou a equipe de implementação do Memorial da República Presidente Itamar Franco, onde trabalhou na curadoria e na coordenação da divisão de educação até 2021. É fundador da Instituição Cultural Bodoque Artes e ofícios (2012), da Revista Trama (2019), do Museu de Artes e ofícios Bodoque (2020) e do Laboratório de Criação em Artes visuais e Design Bodoque ARTELAB (2020). Acredita na Arte e na Cultura como ferramentas fundamentais para transformação do olhar e criação de novas possibilidades de se exercer a vida.

[Artigo] As oficinas e a Fábrica: um panorama do trabalho na contemporaneidade.

por: Francisco Faulhaber

O exercício da vida indica a necessidade de sobrevivência. Isso porque, estar no tempo significa buscar a garantia de continuidade, não importa se jovem ou idoso, racional ou irracional, animal ou planta… Em cada forma de vida observamos que todos se dispõem a continuar – um impulso de querer viver.  Portanto, lidar com a materialidade é um requisito da condição de ser, porque somos todos ela mesma. 

Para nós, humanos, condicionar-se e condicionar a matéria se configura como um método de  sistematizar a dinâmica da realidade, ultrapassando os limites estipulados pelo gene. Tudo isso, fruto, literalmente, da mani-pulação do que chamamos matéria prima, para a obtenção de um resultado (contraditório?) da própria Natureza. Desse esforço em continuar vivo surge a cultura, que logo se irradia com seus desdobramentos. Dos eventos mais significativos da estadia humana na Terra, o fogo, a roda, e até a disseminação de nossa espécie para todos os quatro cantos do Planeta, podem ser considerados motores para o ignição das estruturas de trabalho,  assim como foram os lugares geográficos que nos impuseram a necessidade de adaptação, bem como os tipos de manifestações da nossa organização coletiva e cosmologia. Diante desses desafios da sobrevivência, e segundo as peculiaridades dos lugares, o homem pôde aprender um modo de existir interferindo diretamente na materialidade, e aquilo que seria pura expressão, diante do pensamento sobre a ação, se abre na possibilidade de algo essencialmente humano: o aprimoramento. 

O mote da nossa reflexão, uma comparação entre modelos de trabalho, envolve, dentre outras coisas, a gênese desse aprimoramento. De fato, nossas vidas atualmente, encontram-se imersas em certos valores modernos, como a conversão matemática dos fenômenos, as consequências do processo secular, a superespecialização, etc. Entretanto, tais características não definem todo o sentido evolucionário contido no termo que estamos tratando. Ou seja, ao contrário das irrupções culturais da atitude filosófica e do Cristianismo, as marcas que desenhamos na matéria tem origem em nossas necessidades, e sempre nos acompanharam.  

Nesse sentido, sabendo que das atividades primitivas de sobrevivência se constituiu o arcabouço simbólico das artes e dos ofícios, somos capazes de atravessar o tempo e observar que a essência dessas estruturas permanecem sempre presentes por todas as regiões, e conservam, até os dias atuais, a continuidade geracional e as singularidades daqueles que integram seus processos. E esse não foi um percurso fácil. Vale lembrar que, na maior parte da história, o “trabalho braçal” não era bem visto socialmente e a arte passa a ganhar um status diferenciado, ao menos no Ocidente, a partir do período da Renascença. Sendo assim, podemos dizer que o artista enquanto trabalhador finalmente passa a “existir” no momento em que passa a somar a racionalidade matemática e filosófica às suas habilidades artesanais (mecânicas), dentro de uma noção sensibilidade tida como intelectual. Por outro lado, os demais trabalhos artesanais continuaram “menores”, colocados em segundo plano. Essa é uma clara divisão entre utilidade e contemplação que reflete diretamente sobre quem faz

Com a dispersão dos ideais positivistas, e o processo de industrialização consolidado, essa espécie de “tratamento reificado” se exacerbou. O indivíduo em seu labor, além de continuar sem qualquer privilégio, não mais domina todas as etapas daquilo que produz e passa a ser meramente uma peça de uma máquina composta por várias engrenagens. No caso da realidade brasileira, ainda devemos somar todas as consequências da colonização e do longo período escravocrata que perduram até os dias de hoje, em um processo de modernização contraditório e excludente. Outro aspecto relevante é considerar o modelo de superprodução, a indústria cultural, o consumo fetichista e a “separação” das pessoas como características de uma cultura hipermoderna, ou pós-moderna, que se sustenta em uma dinâmica de produção e consumo que domina todas as esferas da vida. Assim, seguindo a ânsia da própria estrutura em otimizar para obter um fluxo astronômico, o sujeito, agora, precisa agir sem pensar, ou pensar sem profundidade. Nessa lógica hipermoderna de organização laboral, em contraponto à proliferação predatória das multinacionais em uma estrutura global economicamente injusta, muitas comunidades, famílias e entusiastas mantiveram vivas antigas práticas artesanais e suas técnicas. Dessa forma, podemos pensar, por assim dizer, que, ao menos em grupos que não perderam quase todas as coisas (como a terra, a liberdade de escolha e a sua tradição cultural), que algo essencial conseguiu ser mantido ou ressignificado. Na realidade, esse contraponto nos revela a existência de outras formas de compreender a cultura e o trabalho em sua dimensão massificada: apesar de todo o domínio do pop, o é folclore nunca se perde, é como um ato constante de resistência, como aquilo que é fundamental para emprestar um sentido para a vida que precisa existir. 

Os ateliers e oficinas, bem como diversas comunidades tradicionais que ainda hoje conservam processos milenares de manipulação da matéria, representam uma força que permanece. “Viver de arte” não é fácil quando não se está no mainstream. Do mesmo modo, em termos econômicos, como poderia a produção familiar concorrer com a escala industrial? Pelos parâmetros econômicos produtivos da atualidade, muitas oficinas e ateliers tornaram-se inviáveis com a constante redução das demandas, fazendo com que mais e mais trabalhadores “autônomos” sejam reposicionados em camadas sociais mais pobres. Por isso o sujeito, que outrora se via na identidade de sua profissão, é obrigado a migrar para compor uma massa de operariado, integrando, até mesmo, a fila dos desempregados. Toda essa movimentação social representa muito mais que o desmantelamento do sujeito, ela agride diretamente nossa identidade cultural, é o desmonte das culturas regionais pela imposição de um modelo globalista violento de produção. 

Por outro lado, apesar de todos os aspectos negativos referentes ao trabalho na contemporaneidade, existem certos setores da sociedade que buscam e valorizam produtos e produtores artesanais, produzidos fora da lógica massiva e seriada. Obviamente, são movimentos que partem de uma parcela intelectualizada que venta novas propostas, mesmo que num sentido mais profundo e efetivo sejam altamente questionáveis. No entanto, esta preferência, carrega certos valores que são coerentes e condizem com uma perspectiva humanista sobre o trabalhador e sua atuação. 

Em verdade, a crise que enfrentamos agora no campo conceitual sobre o trabalho, exige repensar tudo aquilo que já foi tentado anteriormente, afinal de contas, o questionamento sobre o “contraditório”, citado no primeiro parágrafo, é determinado por nós mesmo, e não é possível se abster. Se, por um lado, a evolução biológica nos deu a inteligência, por outro ela não determinou seu uso, nossas atitudes e suas consequências. Levando em consideração os rumos de nossa reflexão traçados nesse artigo, o aprimoramento coincide com a própria cultura, e é justamente nesse sentido que precisamos nos questionar, pois perder quase todo o tempo de vida em atividades fragmentadas e desvalorizadas, não condiz com o potencial de realização e dignidade humana. 

Nesse sentido, o trabalho familiar, ou em microescalas, pode salvar não somente o sentido existencial do indivíduo diante da necessidade do trabalho, mas, também, mudar os rumos da relação humana com os recursos da Terra.

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