Fotografia analógica: uma experiência caseira

A fotografia, antes de consolidar-se enquanto linguagem artística, surgiu como um experimento científico. Não por menos, seus processos envolvem uma série de reações físico-químicas. Por isso, dedicar-se a fazer fotografias “à maneira clássica” exige muito mais que um tino estético sobre composição. Um método é fundamental.


Com o advento e popularização das câmeras digitais, a fotografia analógica perdeu espaço. Atualmente, pode ser considerada antiquada e um tanto complexa de se realizar. No entanto, ainda existem pessoas que mantêm viva essa prática, e que encontram, na materialidade das técnicas fotográficas, um meio de experimentação e expressão artísticas. O grande desafio é viabilizar e renovar o sentido da tecnologia que revolucionou a produção de imagens.
Sobre esse assunto, conversamos com o artista e educador Guilherme Portes que atuou ativamente na produção fotográfica nos últimos anos e realizou revelações em seu próprio apartamento.

O artista Guilherme Portes encontrou na fotografia analógica uma potente força de expressão.

MAOB: Fale um pouco sobre você e de como surgiu seu interesse pela arte, especialmente a fotografia. 

Guilherme: Nasci em uma cidade com menos de vinte mil habitantes, Divino, na Zona da Mata Mineira. Tive a sorte de crescer no interior brincando na rua e cercado por natureza. Meu avô trabalhava na roça e gostava muito de caminhonetes modelo F-75. Quando sobrava algum dinheiro, ele costumava comprar desses automóveis para reformá-los e, depois, acabava revendendo. Eu e meu irmão brincávamos nestes veículos e, por várias vezes, acompanhamos nosso avô até os lugares onde ele iria negociar para tentar comprá-las. Além do passeio, também estávamos presentes no momento das reformas das carrocerias… E aqui está uma parte importante: eu gostava muito de ver o trabalho dos pintores. A precisão com que eles manipulavam os pincéis e as formas e cores que apareciam me deixavam encantado. Quando eu chegava a minha casa sentia muita vontade de desenhar… Não exatamente aquilo que tinha visto, mas sempre coisas que envolvessem, principalmente, combinação de cores. Acredito que este seja meu primeiro interesse estético envolvendo os elementos da arte – ao menos que eu consigo recordar… 

Agora, sobre fotografia, tenho na memória uma Instamatic da Kodak. Essa câmera pertencia a um tio, irmão da minha mãe. O aparelho, infelizmente, estava estragado quando tive conhecimento, ainda criança. Mesmo assim, tentei desmontá-lo em inúmeras ocasiões para ver se voltava a funcionar. Uma vez, até consegui que ela disparasse, mas nunca cheguei a consertá-la de fato. 

  Desenhei bastante na adolescência. Na casa de uma de minhas avós tem um terraço com uma paisagem linda. Um morro enorme. Ficava lá em cima por horas ilustrando o horizonte e imaginando o que poderia existir afora. Terminando o ensino médio, outro tio, irmão do meu pai, me convidou para morar em Juiz de Fora, caso eu tivesse interesse em tentar o vestibular. Inicialmente, concorri uma vaga para o curso de Letras na UFJF, sem sucesso. No ano seguinte, 2007, uma nova tentativa, desta vez para o curso de Artes que então, ingressei em 2008. 

Na faculdade produzi muito, principalmente pintura. Assim como a maioria dos estudantes, a grana era curta, mas eu sempre aproveitava materiais que sobravam das aulas e mesmo objetos encontrados no lixo, como pedaços de madeira, compensados, dentre outros. Logo em 2009, consegui realizar minha primeira exposição individual, no Pro-Música. Até então, somente trabalhos de desenho e pintura. Na época, posso dizer que nem tinha bons olhos para a fotografia. Uma espécie de pré-conceito que, hoje, nem consigo explicar.

Em 2011, finalmente me envolvi com a fotografia. Consegui uma bolsa no Centro de Educação a Distância (CEAD/UFJF) para fotografar e filmar. A princípio, não tinha interesse na bolsa, mas precisava do dinheiro para me manter em Juiz de Fora. Com a prática, comecei a pegar gosto pela fotografia e o audiovisual. Aproveitei para cursar disciplinas relacionadas no Instituto de Artes e Designer que, neste período, já possuía o curso de Cinema e Audiovisual. 

Coincidentemente, comecei a namorar uma garota que atuava com fotografia. Juntos, fizemos vários serviços como freelancers cobrindo eventos em geral. Mais uma vez a fotografia, de alguma forma, ajudava minha estadia na cidade grande. Quando terminou o meu vínculo com o CEAD, em 2013, consegui ser contratado pelo Serviço Social do Comércio (SESC) para trabalhar como professor de desenho e pintura. Um ano depois, me fizeram a proposta de inaugurar o curso de fotografia. Confiante da bagagem adquirida até então, aceitei. Daí para frente estava consolidada a presença desta linguagem artística em minha vida profissional.

MAOB: Sobre a fotografia analógica especificamente, quando e como isso começou?

G: Falando sobre uma primeira experiência prática, posso citar uma oficina de pinhole que fiz em 2010, com o fotógrafo paraense Dirceu Maués. Esse curso, na realidade, gerou em mim um primeiro apreço pela fotografia em geral. 

No momento que partilhamos um interesse, as coisas ganham mais força. Eu e esta namorada começamos a coletar e reunir as câmeras velhas que existiam em nossas famílias. Estávamos constituindo uma espécie de coleção e, ao mesmo tempo, dando um novo sentido para aqueles objetos que estavam esquecidos. Até aqui, praticamente não colocamos as câmeras analógicas para funcionar, era muito mais uma relação afetuosa por aquilo que elas representavam. 

Foi aí que, em 2015, passeando pela Praça 15, no Rio de Janeiro, encontrei, em meio à feira livre, um vendedor com algumas câmeras antigas. No meio de tantas, a que mais nos chamou a atenção foi uma Polaroid. Nunca tinha visto uma de perto. Era incrível aquela “câmera instantânea”. Queria levá-la e fiz um teste para ver se funcionava. Deu tudo certo e ainda restavam oito chapas dentro da câmera. Posso dizer que aqui começa a vontade de revelar. 

Outra câmera que foi um incentivo para o início das fotografias analógicas, foi uma Olympus Pen que estava no meio da nossa “coleção”. Não lembro bem como chegou até nós, mas, com certeza, foi mais uma herança vinda de alguma parte de nossas famílias. Ela literalmente multiplicou a vontade de fotografar com filme. Fazia 72 fotos, porque “cortava” os frames ao meio – a câmara escura dela é metade do tamanho padrão.

MAOB: Você comentou sobre a vontade de revelar… 

G: Sim! A partir de 2014, minha produção com câmeras analógicas foi aumentando e progredindo. Ao mesmo tempo, as opções de laboratórios de revelação em Juiz de Fora eram escassas. Nessa época, ainda existia o Fuji Filme, na Rua São João, e o Zé Kodak. Além disso, nesta era imediatista onde quase tudo é “terceirizado”, residia em mim, uma vontade de participar e dominar integralmente as etapas do processo fotográfico. 

  Em 2016, fui para Santos Dumont ministrar uma oficina de pinhole a pedido do SESC. Nessa ocasião, conheci o fotógrafo Erik Weitzel que também participaria do evento e estava responsável pela parte das revelações. E assim se deu o meu primeiro contato direto com a revelação. Eu e Erik trocamos muitas ideias e, desse encontro, nasceu uma amizade. Comecei a pesquisar bastante sobre a prática e a pensar uma maneira de viabilizá-la. Foi então que essa possibilidade tornou-se definitiva: meu amigo recente resolveu me presentear com alguns químicos e papéis fotográficos velhos. Nesse mesmo período, ganhei também um ampliador. A esta altura, faltava apenas o lugar… 

Em meu apartamento, no bairro Granbery, havia um quartinho nos fundos, junto à área de serviços. Esse foi o local onde improvisei e construí minha “sala escura”. Cuidadosamente, fui escolhendo e decidindo os materiais necessários para estruturar um micro laboratório. Bastante obstinado, em poucos meses consegui montá-lo e iniciar as primeiras revelações e ampliações. 

2017 foi o ano de maior produção. Aprendi a revelar com caffenol que é uma técnica alternativa que utiliza materiais baratos e facilmente encontrados. Não é um resultado profissional, mas a qualidade atendia bem minhas pretensões. O mais importante era participar e dominar o processo… Ver algo se materializar diante de si e por consequência imediata da sua ação e pensamento. Passei longas horas dentro deste quartinho. Não podia abrir a porta, ou correria o risco de estragar tudo que estava sendo feito. Levava tudo que ia precisar: comida, bebida… Era uma necessidade de fazer e que precisava acontecer como desse.  

Pude aprender e criar muitas coisas… No “laboratório” fiz muitas fotografias sem câmera fotográfica. Essa era uma das experimentações que eu priorizava. A ideia era explorar justamente os componentes materiais da revelação. As reações químicas do papel e das soluções; os efeitos físicos da luz, das sobreposições… Um dos trabalhos que desenvolvi, eram ampliações de slides antigos de aulas de ciências que foram descartados pelo SESC. A série de montagens que produzi com imagens de anatomia humana foram expostas no Espaço Reitoria da UFJF, em outubro de 2017, na mostra Embate ao Fascismo – 80 Anos de Guernica. No ano seguinte, junto com Erik e seu irmão, Christian, também fotógrafo, promovemos o “Rolê analógico”, um encontro aberto que acontecia nas ruas de Juiz de Fora com intuito de divulgar e incentivar a prática da fotografia analógica.  

Mantive um fluxo razoável de produção até me mudar para Portugal, em 2019. Trabalhava no SESC todos os dias, mas sempre aproveitava os horários livres e finais de semana para me dedicar à revelação. Expandir meus conhecimentos rumo à integralidade deste processo de construir imagens, pôde me aproximar um pouco mais do que eu queria enquanto possibilidade de expressão.


Sobre o entrevistador:

Francisco Faulhaber é é professor de arte e filosofia e coordenador de pesquisa do Museu de Artes e Ofícios Bodoque de Juiz de Fora.

Uma conversa com a Educadora Juliana Prado sobre sua atuação no Museu Casa do Pontal

Você conhece o Museu Casa do Pontal? Localizado no bairro Recreio, no Rio de Janeiro, ele é considerado o maior e mais significativo museu de arte popular do país. As obras que estão sob sua guarda nos mostram como a realidade local pode influenciar diretamente no fazer artístico. Seu acervo nos permite estabelecer relações muito claras entre poética, materialidade e território, já que muitas dessas obras retratam a partir do barro e da madeira, cenas do cotidiano desses mestres de arte, artesãos e artífices, que emergem de um contexto onde a arte significa, sobretudo, uma forma de trabalho, um ofício.

Tivemos a oportunidade de conversar com a arte educadora Juliana Prado Teixeira, que atuou como coordenadora educacional da Casa do Pontal do ano de 1998 a 2015, e atualmente atua no Museu eventualmente na formação de mediadores para exposições. O educativo da instituição conta com visitas teatralizadas educacionais, seminários, oficinas, atividades em escolas, formação continuada e publicações direcionadas, e teve seu trabalho reconhecido através do Prêmio “Amigo das Escolas”, concedido pela Secretaria Municipal de Educação (2002), pela Menção de Destaque para o Programa Educacional e Social no Prêmio Somos Patrimônio (2008) e pela Menção Honrosa no Prêmio Darcy Ribeiro de ações educativas em museus, concedida pelo Departamento de Museus do Iphan (2008).

MAOB – Na sua visão, qual a importância da preservação e difusão de acervos que carregam narrativas sobre a cultura popular brasileira?

Juliana – Bem, é importantíssimo pra nossa formação saber de onde viemos, como interferimos no planeta, rever nossas experiências bem ou mal sucedidas. Isso nos dá um sentimento de pertencimento a determinado grupo. Nos traz auto-confiança, auto-estima, noção do coletivo, resgata afetividades, autoconhecimento e criatividade para lidar com os desafios da vida. E no caso da cultura popular, que nasce nas camadas menos favorecidas da sociedade, isso é essencial porque demonstra que a cultura está em toda parte, independente de fatores econômicos e sociais. Esse reconhecimento da importância da cultura popular é essencial para a formação de uma sociedade justa, igualitária, criativa e colaborativa.

MAOB – Que postura a ação educativa museal deve assumir para contribuir efetivamente no respeito e conhecimento da diversidade cultural brasileira?

Juliana – Ela deve assumir uma postura dialogal com o visitante e principalmente com os estudantes. Porque através do diálogo você pode fazer links interessantíssimos de elaboração cognitiva do acervo e da visita. Uma visita ao museu pode se transformar numa “experiência inesquecível”. E até mesmo abrir portas para transformação de vidas. Claro que quando a gente vai dialogar com alguém é necessário que estejamos com a mente e o coração abertos e que estejamos atentos para perceber que tipo de linguagem e conversa podemos desenvolver, sem pré-conceitos e preconceitos. Cada público é um público, cada estudante é um estudante, o indivíduo e o coletivo, o uno e o todo. E precisamos estar com uma escuta bem ativa para podermos perceber o outro, suas necessidades e afetividades. Acolhimento, escuta e afeto são palavras-chaves para um bom trabalho educacional no museu.

MAOB – A Casa do Pontal oferece visitas teatralizadas, você pode explicar quais são as diferenças deste tipo de visita e como ela surgiu?

Juliana – A visita teatralizada utiliza a linguagem teatral para fazer instigações a fim de contextualizar as obras através de versos, músicas, danças e dramatizações. Muitas vezes essas linguagens artísticas despertam memórias afetivas que nos permitem criar sentidos relacionados ao acervo. Sentidos tanto individuais como coletivos. Nós só absorvemos o aprendizado quando ele faz sentido pra gente, nem que ele seja imaginado, ou seja, quando elaboramos e participamos ativamente da criação do conhecimento. Aí aprendemos de fato. No caso da arte popular é muito fácil criar sentido porque é uma arte de comunicação muito direta, mas mesmo assim é importante que o público possa criar e elaborar seus próprios sentidos, num diálogo permanente entre eles e com o acervo.

A visita teatralizada foi criada ao percebermos que o acervo do museu nos remetia a versos, músicas e histórias da cultura popular que praticamente surgiam das obras por elas mesmas. Como se as esculturas falassem, dançassem, cantassem. A cultura brasileira é muito rica e diversa. E a arte está presente muito intensamente nas nossas vidas. A linguagem teatral é muito dialogal, é viva, em ebulição, ao mesmo tempo diáfana e transformadora. O teatro é livre para quebrar estereótipos, permitindo que o público se veja, muitas vezes, criando novos papéis para si e elaborando novas possibilidades para a resolução de problemas. Abre as portas da criatividade.

MAOB – O trabalho aparece com frequência como tema nas obras do Museu, por que você acha que existia esse interesse em retratar as profissões?

Juliana – Porque, como dizia Jacques Van de Beuque, o criador do museu, “o povo brasileiro está sempre trabalhando”. O trabalho está no dia-a-dia de todo mundo. Ele é muito importante no imaginário social. Ter um ofício ou uma profissão nos torna cidadãos reconhecidos socialmente. Até mesmo na hora de festejar e se divertir o trabalho aparece. A cultura popular tem sua complexidade também, sua elaboração, sua organização, mesmo que possa parecer, a princípio, caótica. Isso requer trabalho. Nas festas populares, por exemplo, existe uma quantidade enorme de pessoas trabalhando para sua realização. Nas danças, nas indumentárias, na música, na culinária, nos cenários, etc… Às vezes, a comunidade inteira está envolvida nessa produção. De modo que o trabalho, a arte e a criatividade andam juntos, não tem separação, não tem gavetinhas, é tudo misturado no dia-a-dia com muita alegria e colaboração.

MAOB – Ao relembrar sua longa jornada enquanto educadora no Museu Casa do Pontal, imagino que venham muitas memórias de afeto das experiências de mediação vivenciadas ali. Existe alguma que se destaca? Por quê?

Juliana – Realmente, foram 18 anos de aprendizado constante, muita afetividade, muitas descobertas, muita troca com os estudantes, professores, pessoal das organizações e projetos sociais, seminários, atividades e exposições fora do Museu, até em outros países. Uma experiência transformadora para mim, como pessoa e como educadora. É muito difícil citar uma única experiência, ainda mais assim rapidamente. As pessoas voltam ao Museu, muito tempo depois perguntando sobre determinada música, artista que conheceu ou versos e atividades feitas. Sempre querem voltar, trazer um amigo, um parente. Muitos relatos de portas que se abriram. Me lembro de uma menina que saiu de uma visita e comentou, “puxa, não sabia que eu era tão importante pra ter um museu sobre as minhas coisas…” E aí você vê o que pode ser “uma experiência inesquecível”.