por: Poliana Vieira Côrtes Lopes

Em 1836, o engenheiro alemão Heinrich Wilhelm Ferdinand Halfeld, então engenheiro-chefe da província de Minas, foi encarregado da construir a Estrada do Paraibuna,  que iria de Ouro Preto ao Rio de Janeiro. Halfeld acabou se estabelecendo na região, entre as margens dessa Estrada, onde se formou o arraial de Santo Antônio do Paraibuna, povoado que, mais tarde, daria origem à cidade de Juiz de Fora. Em 1850, o arraial foi emancipado de Barbacena e elevado à categoria de vila, passando a se chamar Villa de Santo Antônio do Parahybuna; depois, em 1856, a cidade mudou de nome para Juiz de Fora, em homenagem a um ilustre desconhecido. 

Já o surgimento deste nome tão característico – Juiz de Fora – gera muitas dúvidas no que diz respeito à sua origem. Duas teorias herdadas por Lindolfo Gomes e Albino Esteves, relatam que “Juiz de Fora” era uma expressão utilizada para se referir à um magistrado, do tempo colonial, nomeado pela Coroa Portuguesa, para atuar onde não havia Juiz de Direito. A outra teoria diz que um “juiz” (magistrado) de fora (não habitante da cidade) esteve de passagem na região e hospedou-se por algum tempo numa fazenda, chamada “Fazenda Velha” e que, mais tarde, próximo à ela, surgiria o povoado de Santo Antônio do Parahybuna. Outros historiadores, como Roberto Dilly, acrescentam que este tal “juiz de fora”, depois de uma briga no Rio de Janeiro, se mudou para a região e a sede da fazenda que ele construiu ficou conhecida pelo nome de seu cargo, algo comum para a época. Depois de se desentender com moradores, o magistrado teria se mudado novamente, mas para São João Del Rei, destruindo a visão romantizada da história.

Essa discussão é tão antiga quanto a cidade. Paulino de Oliveira afirma que o dr. Joao Penido, um dos pioneiros da cidade, ouviu de seus antepassados que um prêmio de duzentos contos de réis foi oferecido para quem desvendasse tal mistério. (OLIVEIRA, 1966, p.15). Provavelmente, ninguém recebeu essa quantia, visto que, até os dias de hoje, não há certeza quanto à origem do nome.

Devido à proximidade dos pioneiros da cidade com a família imperial, trouxe privilégios e desenvolvimento à região. A Estrada de Rodagem União Industria, por exemplo, que liga Petrópolis a Juiz de Fora, foi a primeira rodovia macadamizada da América Latina. A concessão para a construção e custeio da Estrada ficou a cargo do cafeicultor Mariano Procópio Ferreira Lage, organizador da Companhia União e Indústria. Tal companhia encampou grande parte da Estrada do Paraibuna, construída sob as ordens do engenheiro alemão, naturalizado brasileiro Henrique/Heinrich Halfeld, que também, nesse empreendimento, seria o responsável pelas obras do trajeto feito para encurtar a viagem e escoar a produção de café da região com mais facilidade. Dessa forma, foi inaugurada por Dom Pedro II em 1861. (STEHLING. 1979, pp. 144, 122-123.)

Por conta da importante conexão comercial estabelecida pela estrada, a cafeicultura, que se desenvolveu ao redor de Santo Antônio do Paraibuna, transformou a Vila no principal núcleo urbano da região. Nela, a produção das fazendas se concentrava para ser transportada e comercializada na Corte, na cidade do Rio de Janeiro. Posteriormente, na década de 1870, o encontro da Estrada de Ferro Dom Pedro II com a Estrada União Industria, também colaborou com o desenvolvimento e enriquecimento da região. Com esses meios de escoamento da produção, o plantio de café na Zona da Mata cresceu muito, e Minas Gerais se tornou uma grande província cafeeira

Outro acontecimento vanguardista, foi a inauguração da luz elétrica, idealizada e desenvolvida principalmente por Bernardo Mascarenhas – “empreendimento notável que, mais uma vez, veio colocar a cidade na vanguarda das cidades brasileiras”.(OLIVEIRA, 1966, p.113). Por esse motivo, em curto espaço de tempo, a região colecionou notáveis avanços. Em 1887 surgiu a primeira fábrica têxtil movida a eletricidade, em seguida, foi fundada a Companhia Mineira de Eletricidade, e, um ano depois, em 1889 foi construída a Usina Hidrelétrica de Marmelos, a primeira da América Latina. O pensamento visionário de Mascarenhas também propiciou iluminação pública movida à energia elétrica, iniciativa pioneira na América Latina. Infelizmente, o período de prosperidade na região não demorou muito a declinar, e, já na segunda década do século XX, a cultura do café se encontrava bastante desgastada na Província. Desse modo, a crise do café fez com que houvesse uma mudança de paradigma da cidade de Juiz de Fora, o que ocasionou um crescimento nos setores da indústria e da construção civil.

 IMIGRAÇÃO 

A cultura brasileira, e em especial a da cidade de Juiz de Fora, teve influência direta dos imigrantes que se mudaram para a região. É importante perceber que, partir de 1850, o governo do Império passou a incentivar a vinda de imigrantes para o Brasil. Isso ocorreu por conta de vertentes abolicionistas que já existiam em terras brasileiras desde a Independência. 

Em alguns países latino-americanos a abolição esteve diretamente ligada à própria noção de liberdade civil, pois não havia grandes interesses materiais na escravidão.  Já  “O Brasil e os Estados Unidos se encontravam em oposição àqueles, pois, ao se tornarem independentes, suas riquezas repousavam na mão-de-obra escrava.”(SILVA, 1975, P.55) No entanto, o problema norte-americano foi resolvido de forma violenta e abrupta, em decorrência da Guerra de Secessão   Hélio Silva afirma que antes de acabar com a escravidão, o Brasil procurou acabar com os Escravocratas, com propagandas e apelo por parte dos abolicionistas, poetas, e escritores.

De todo modo, com a proibição do tráfico negreiro, por consequência da Lei Eusébio de Queirós, a imigração foi uma opção do Imperador Dom Pedro II, e, entre os seus principais objetivos, estava o povoamento de regiões vazias, a valorização das terras, que seriam ocupadas pelos imigrantes, e a produção de alimentos que pudessem abastecer as lavouras de café. (JÚNIOR, 2014, p. 31)

O historiador Antonio Gasparetto Jr. (2014) afirma que o Império pagava pessoas para fazer uma espécie de propaganda favorável para o Brasil no exterior, com o intuito de incentivar a imigração de cidadãos europeus. Nesse sentido, também haviam propagandas de companhias de navegação específicas em troca de uma porcentagem sobre cada imigrante. O autor afirma, ainda, que, mesmo assim, o fluxo migratório teve um desenvolvimento lento no Brasil, condicionado por fatores políticos nacionais e internacionais, “iniciando-se com a extinção do tráfico e, passando, depois, pela abolição, pelas crises econômicas do Brasil e [posteriormente] pela Primeira Guerra Mundial.” (JÚNIOR, 2014, p.35) 

IMIGRACAO ALEMÃ

Em Juiz de Fora, grande parte das transformações políticas se deram, primeiramente, através das iniciativas de Mariano Procópio Ferreira Lage, que em 1855 conseguiu empréstimos para a introdução de colonos alemães na cidade para a construção da estrada União e Indústria, juntamente com suas famílias, artífices de diversos ofícios, entre eles: mecânicos, fundidores, ferreiros, carpinteiros, marceneiros, pedreiros, pintores, oleiros e etc. Além desses, foram contratados na França e Alemanha engenheiros e arquitetos para chefiarem a construção. (STEHLING, 1979, pp. 144, 122-123). Dentre os imigrantes que vieram durante esse período, vários constituíam importante posição técnica, formando mão-de-obra especializada. Eram técnicos engenheiros, arquitetos e, após 3 anos, 20 artífices, como ferreiros, pintores, latoeiros foram trazidos. Em 1857, chegaram mais 1.162 imigrantes alemães, correspondendo a 20% da população total da cidade. Este grande grupo foi instalado em uma vasta área, nomeada Colônia D. Pedro II, correspondendo hoje aos bairros de São Pedro, Borboleta e parte do Fábrica, loteado por Mariano Procópio e negociado como incentivo para a vinda dos imigrantes. A maioria deles foi designado para trabalhar nas plantações de café. Na ocasião, a intenção era colocar em prática um “projeto agrícola, que visava criar trabalho, alternativo à atividade escravista, na produção de bens de consumo interno, na ‘regeneração’ da agricultura e promoção da ‘civilização’ do país” (BORGES, 2000, p.90). Mas a colônia não conseguiu se manter por muito tempo, a ausência de mercado para os produtos plantados se associava à falta de incentivos para sua manutenção. Além disso, eram muitas as dificuldades com relação à língua, costumes, religião e início das primeiras roças. Desse modo, muitos colonos foram abandonando suas terras e se fixando na cidade, somando-se àqueles trabalhadores braçais, operários, ligados à Companhia União e Indústria. 

Por consequência disto, os alemães foram aos poucos se integrando às atividades urbanas, pois, “com o fim das obras da rodovia, a maioria dos colonos já tinham se erradicado em Juiz de Fora. Alguns aproveitaram as poupanças conquistadas ao longo dos anos  para se associarem, montando pequenas fábricas, ou estabelecendo-se no ramo comercial e de serviços” (JUNIOR, 2014, p.63), apesar de esses casos serem mais específicos. Sendo assim, muitos imigrantes se tornaram então, carroceiros, sapateiros, marceneiros, operários, pedreiros, fabricantes de cerveja e etc, contribuindo diretamente para o desenvolvimento e crescimento industrial da cidade junto à população local. 

IMIGRAÇÃO ITALIANA

Os italianos têm sua presença marcada na cidade desde a década de 1860, quando o crescimento de Juiz de Fora atraiu um número significativo de imigrantes, que se fixaram de forma espontânea na região. Muitos deles eram “artesãos ou proprietários de pequenas oficinas, onde, de uma forma doméstica, manufaturavam e comercializavam seus próprios produtos; eram eles funileiros, sapateiros, marceneiros, latoeiros, etc.” (CHRISTO, 2000, p.136)

Cerca de duas décadas mais tarde, às vésperas da Abolição da Escravatura, os fazendeiros e empresários do país aproveitam a oportunidade de conseguir contratar uma abundante mão-de-obra, sem o custo das passagens de navio – uma vez que o governo imperial tomou para si a responsabilidade de trazer os trabalhadores. A Lei Áurea ainda não havia sido assinada, mas a Lei do Ventre Livre e a Lei Dantas já existiam e, por esse motivo, a população escravizada diminuía consideravelmente. Segundo Hélio Silva “quanto ao problema abolicionista, os republicanos só se comprometeram fortemente, por volta de 1887, quando o presidente do Partido Republicano Paulista, Campos Sales, resolveu fazer em Santos uma conferência a favor da liberdade dos negros.” (SILVA, 1975, p.47) 

Coincidência ou não, os imigrantes italianos chegaram na cidade, de forma organizada, em 1887, e, no ano seguinte, dois importantes contratos foram assinados entre a Associação Promotora da Imigração e o Governo Imperial. Por força desses documentos, “a Associação se comprometia a, inicialmente, introduzir 30.000 imigrantes na província e, posteriormente, 25.000, no Sul de Minas. Desses imigrantes grande parte era de origem italiana”. (CHRISTO, 2000, p.130), Em Juiz de Fora, Bernardo Mascarenhas criou uma das principais fábricas de tecido da região, denotando sua visão capitalista de vanguarda. Além disso, Mascarenhas formou, juntamente com barões e grandes fazendeiros, a Associação Promotora da Imigração acima citada, não só para obtenção de mão-de-obra barata para a lavoura, mas também para a indústria.

Com  grande afluxo de imigrantes na região, a necessidade de abrigar todas essas pessoas fez com que fosse criada  na cidade a Hospedaria Horta Barbosa, distante do centro, localizada na fazenda Tapera (onde hoje é o bairro Santa Terezinha). O prédio construído para os imigrantes, foi incorporado ao 2º Batalhão da Polícia Militar, que existe até os dias de hoje. Em 1888, criou-se, para normatizar o funcionamento da hospedaria, uma Inspetoria Geral de Imigração. Por meio dela, segundo Maraliz de Castro, os recém chegados teriam o direito de ficarem hospedados por 10, até que assinassem os contratos com os empregadores, além de terem as passagens asseguradas para todos os membros da família. 

Muito embora tenha havido um esforço institucional para suprir as necessidades dos imigrantes, os resultados da Imigração Subvencionada foram aquém do esperado, e, ainda em seu primeiro ano de funcionamento, a Inspetoria em Juiz de Fora foi fechada, fazendo com que muitos imigrantes começassem a reivindicar autonomia e terras. No dia 30 de dezembro de 1888, o jornal “O Pharol” registrou que “Os imigrantes que se acham na Hospedaria, cerca de 1.000, declaram que se retirarão dali, se o governo não lhes der terras, onde possam estabelecer um núcleo por conta própria.” ( VER CITACAO DO JORNAL – P. 131). Com o tempo, as condições de hospedagem ficaram mais precárias e a realidade que os imigrantes encontravam quando chegavam era bem diferente da propaganda dos agentes de imigração. Em um espaço com capacidade media de 500 pessoas, cerca de 2.000 imigrantes ficaram hospedados simultaneamente, sem acomodações necessárias e sem cuidados básicos de higiene, o que acarretou em surtos de doenças e indignação. Em 1889, uma epidemia de varíola provocou a suspensão da entrada de novos hóspedes, e o prédio foi fechado por cordão de isolamento sanitário. Em 1891 um novo surto de varíola assolou o local, deixando todos revoltados com a péssima condição em que se encontravam. Já em 1894 e 1895 foi a cólera que se espalhou entre os corredores e quartos do edifício. 

As disseminação de doenças trazidas da Europa na cidade foi um dos motivos de  tensão entre os moradores da região e os recém-chegados, que ansiavam por trabalho e uma vida melhor. Eles chegaram aos montes e se agarravam a qualquer oportunidade devido à alta concorrência. Entretanto, segundo a historiadora Maraliz, mesmo com todas as adversidades, eles preferiam permanecer na cidade.

“Embora Juiz de Fora esteja situada em zona de produção cafeeira e a ela deve parte de seu desenvolvimento, no momento da entrada de um segundo contingente mais numeroso de imigrantes italianos, a produção cafeeira não demandava de maneira significativa essa mão-de-obra, devido à permanência da maioria dos ex-escravos e o trabalho de diversas outras categorias de homens livres pobres, como peões, camaradas e agregados nas fazendas. Era a área urbana, com suas múltiplas atividades, que atraía aqueles que aspiravam uma vida melhor.”(CHRISTO, 2000,p.128)

É interessante notar que a cidade oferecia oportunidade de crescimento e de expansão dos negócios através de cooperação familiar ou até por criação de pequenas sociedades, que envolviam os próprios italianos. Prova disso é que no início do século XX foi registrado uma crescente participação italiana nos empreendimentos da cidade, que estavam em expansão, e o aumento do número de sociedades entre negociantes italianos e brasileiros. Nesse ponto, apesar da maioria dos empreendimentos serem oficinas pequenas, é possível constatar que houve também investimento dos imigrantes em fábricas, principalmente entre 1895 e 1921. Normalmente, tais categorias de negócios envolvidas, que eram fábricas de calçados, manteiga, fogos, couro, biscoitos bebidas, móveis e etc,  contavam mais com a força de trabalho, experiência e conhecimento dos proprietários do que com um investimento, significativo, em maquinário ou mão-de-obra. 

Ainda nesse contexto, alguns imigrantes se empenharam no ramo da indústria têxtil, “produzindo meias e malhas com maior nível técnico, mas ainda com poucos operários e maquinário. Outros, investiram na construção civil, atendendo às demandas do crescimento urbano.” (CHRISTO, 2000, p.137) Entre os trabalhadores napolitanos, muitos que possuíam nenhum tipo de curso ou conhecimento específico em alguma profissão, tampouco experiência técnica para montar seu próprio negócio. Logo, o proletariado da cidade cresceu ao receber esses trabalhadores para realizar tarefas braçais e operárias. 

Não há muitos estudos sobre os operários italianos em Juiz de Fora, mas pode-se encontrar algumas citações de incidentes, acidentes ou até uma greve de âmbito nacional que teve desdobramentos na cidade em 1912, e que durou cerca de 15 dias. As reivindicações dos trabalhadores eram, dentre outras coisas, a diminuição da jornada de trabalho, de 10 para 8 horas por dia. As categorias mais atuantes foram os sapateiros, tecelões e operários da construção civil. Este último setor possuía uma parte significativa dos operários de Juiz de Fora, associados aos setores têxtil, do vestuário e toucador. Diante da ameaça dos grevistas de abandonarem a cidade em busca de outro trabalho, grandes construtores, como Pantaleone Arcuri & Spinelli, Luiz Perry e Pedro Timponi, foram os primeiros a ceder às reivindicações.


Poliana Vieira Côrtes Lopes é artista, sócia e diretora de criação da Instituição Cultura Bodoque Artes e Ofícios. É mestrando do programa de pós-graduação Mestrado Profissional em Preservação e Gestão do Patrimônio Cultural das Ciências e da Saúde – Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz).

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