Das expressões artísticas que transformam olhares e vivências, o teatro talvez seja a que investigue a dimensão mais profunda e verdadeira do espírito humano. Ao endereçar ao universo seus relatos sobre a existência, o teatro transforma a representação da vida em um registro potente e inspirador, capaz de trazer aos espectadores olhares sensíveis sobre si e novos modos de interpretar suas vivências. Ademais de qualquer lógica filosófica contida no teatro, o fazer artesanal, presente na construção de cada peça, se constitui como um ofício de extrema importância, um processo que, aos poucos, se torna responsável por revelar a natureza da proposta em sua essência. Da cenografia ao figurino, a artesania das mãos encena uma visão holística do espetáculo, cuja metodologia de criação exige uma devoção pessoal diletante. Assim, ao tecer a ornamentação de uma peça teatral, o artista deixa pistas de sua paixão em cada cor, forma e textura que acompanham o suor e a dedicação de cada ensaio. A artesania que entra em cena no teatro, também interpreta seus personagens com maestria, pois o figurino e a cenografia são textos, cuja linguagem se coloca como um instrumento de leitura da representação. Por isso, cada artesão envolvido em sua construção se torna cúmplice de um corpo coletivo comprometido com a verdade da interpretação em cada ato.

Através dessa devoção, o artista Paulo Alvarez construiu uma expressão artística única, adornada por uma complexa pluralidade de linguagens. Natural de Guarani, Paulo se despediu da terra natal para cursar comunicação social na UFMG em 1978, e, desde então, as artes visuais se apresentaram como um caminho possível para as suas inquietações como programador visual. Ainda em Belo Horizonte, Ao mergulhar no universo da artesania do teatro, suas inquietações encontraram um vasto refúgio, e, dessa forma, o artista também criou o figurino, as alegorias e adereços para exercer a própria vida para desaguar nela sua paixão pelas artes.

Entre seu retorno para Guarani em 1987 e a mudança para Juiz de Fora em 2000, Paulo Alvarez trabalhou em mais de 15 peças de teatro como figurinista, cenógrafo e ator, além de emprestar sua potência artística ao carnaval e à outros projetos artísticos. Neste percurso, Paulo Alvarez também construiu sua carreira como artista visual, realizando mais de 20 mostras coletivas e individuais em diversas cidades. Além da artesania de seus fazeres artísticos, Paulo atua há mais de 15 anos como trabalhador da cultura, realizando a curadoria, concepção e montagem de exposições de arte em diversos espaços culturais de Juiz de Fora. Em cada trabalho, sua paixão compartilhada construiu uma identidade estética para as exposições de arte em Juiz de Fora, ajudou a cartografar o imaginário estético de uma geração de artistas, além dar coerência e sentido para diversas exposições de estudantes de arte na cidade.

Hoje o Museu de Artes e Ofícios de Juiz de Fora, celebra, através dessa exposição virtual, a destreza das mãos, a delicadeza e sensibilidade do olhar artístico comprometido com o fazer artesanal, que encontra soluções criativas e sofisticadas para a manutenção do espetáculo dos dias, no teatro, no carnaval, em obras de arte e espaços culturais, e, ao contrário do que previa Benjamin, aponta que as alegorias não são no reino dos pensamentos o que as ruínas são no reino das coisas, elas são a manifestação do espírito humano e suas paixões na materialidade do mundo, no palco da vida.

Enquanto cursava Comunicação Social/Publicidade, UFMG, Paulo Alvarez procurava nas artes visuais novos caminhos para acrescentar ao seu trabalho, como programador visual, orientação que já lhe despertava interesse e proporcionava algumas experiências com grupos ligados à dança e ao teatro, que também se formavam na FAFICH/UFMG (Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Federal de Minas Gerais).

Com a  inauguração da Oficina de Teatro/Escola de Artes Cênicas, 1982, em Belo Horizonte, Alvarez frequentou alguns cursos na área de figurino cênico e teatro na educação. Com a orientação do artista, figurinista e cenógrafo Décio Novielo, Paulo Alvarez mergulhou com muita paixão à artesania teatral. concebendo alguns figurinos, alegorias, adereços e muito mais deste fazer artístico, a serviço da cultura.

De Olhos Fechados, de João Vianney.
Antônio Edson, Wanda Fernandes, Eduardo Moreira, Teuda Bara e Nabo Vidigal, 1983. Figurino: Paulo Alvarez e Sumaia Costa. (Fotografias: Arquivo Grupo Galpão)
Aprendiz de feiticeiro, Paulo Alvarez e Cesar Ornellas
Suburbano Coração, Paulo Alvarez, Josi Souza, Silvia Dutra e Mire Bitencourt.
Pluft, o Fantasminha, Alexandre Moreira e Marcelino Rinco
Arte feita para camiseta Mirins de Guarani, carnaval 1996.
Luciane d’Ornellas, Mirins de Guarani, 1996.
Karla Monteiro, Mirins de Guarani, 1996.
Carolina Baesso, porta bandeira da Unidos de Guarani, com adereços feitos por Paulo Alvarez no carnaval 2000.
Artes para camisetas de agremiações carnavalescas de Guarani, 1980/1990.

Projeto em aquarela e confecção de alegoria em técnica mista s/ mdf. 
Sobre J. Carlos / Carnaval 2000 -Caesar Park Hotel . RJ. 
Produção de evento: Angela Almeida

Projeto em aquarela e confecção de alegoria, técnica mista s/ mdf. 
Sobre Carmem Miranda / Carnaval 2001 -Caesar Park Hotel . RJ. 
Produção de evento: Angela Almeida

O Leão no inverno, James Goldman. Direção: José Eduardo Arcuri, 2000.
Sandra Emília. Sérgio Arcuri. Alesandra Visentin. José Eduardo Arcuri
Pinturas / texturas de cenário
: Paulo Alvarez
Fotografia: Lúcio Oliveira
Ilustração para espetáculo: Feminino Plural, Corpus núcleo de dança, 2001.
Figurino para o espetáculo: Flicts, Corpus núcleo de dança, 2005.
Croquis para figurino do espetáculo: Caminho das águas, Corpus núcleo de dança. 2004.

…”A gente vive uma vida ao lado de uma pessoa e não se conhece”…

Querida Mamãe, de Maria Adelaide Amaral. Direção: Sérgio Lessa Arcuri. Elenco: Sandra Emília, Alessandra Visentim. Cenário: Paulo Alvarez. 2003. Fotografia: Nina Mello.
Cenário para apresentação musical do banda Matilda. 2008. Fotografia: Luiz Antônio Mattos
Cenário para apresentação musical de Nêga Lucas. 2006.

Atualmente, Paulo Alvarez trabalha no setor de museologia, do Museu de Arte Murilo Mendes, sendo responsável pelo setor de exposições e acervo de artes plásticas. Neste caminho das artes e de muitos ofícios, Alvarez reencontra com a possibilidade de discutir novas versões sobre o teatro, através de uma especialização (UVA,2013), com projeto acadêmico final sobre  a artesania popular utilizada pelo diretor Gabriel Villela na construção do espetáculo A rua da amargura-14 passos lacrimosos sobre a vida de Jesus, com o Grupo Galpão (1994). Esta pesquisa também resultou na exposição de artes visuais, Alegorias tecidas, na Galeria Celina Bracher, em 2013, CCBM, Juiz de Fora.

“ Afetos bordados em poesias visuais. Essa é a linha que conduz à trama poética das alegorias tecidas de Paulo Alvarez. Transitando com segurança e liberdade entre o desenho, a pintura, a colagem e o objeto, o artista imprime em seus trabalhos uma soma de habilidades do fazer artístico entrelaçada a outros campos da cultura e da visualidade. Arte, artesanato, poesia, teatro, dança e festa popular. Tudo se mistura e se refaz em suas construções alegóricas.”

Valéria Faria – artista visual e professora da Universidade Federal de Juiz de Fora