A visita à Museus como ponto de vulnerabilidade do sensível

por: Frederico Lopes de Oliveira Côrtes

Muito além de uma qualidade emocional, a sensibilidade pode ser entendida como uma capacidade perceptiva sensorial responsável por estabelecer conexões e inaugurar constructos complexos como compaixão, ternura, empatia, delicadeza e suscetibilidade. Falar de sensibilidade, e de formas de desenvolvê-la, envolve a compreensão de que a nossa percepção carece de cuidado, introspecção e precisa ser interpretada com profundidade.

Ao longo da história da arte, a representação visual ajudou a descrever traços fundamentais da condição humana, como a tragédia do fracasso, o esplendor do sucesso, a compaixão e a lucidez da mente humana na plenitude de suas virtudes ou a sua estupidez brutal quando se volta para o mal, (ARNHEIM, 2004, pág 243). Sob essa perspectiva, devemos considerar, ainda, que as concepções artísticas passaram por inúmeras mudanças estéticas, do figurativo ao abstrato, da pintura ao happening, que ajudaram a perscrutar a existência humana através de experiências multisensoriais inéditas. Essas mudanças oportunizaram aos fruidores a possibilidade de assimilar novas interpretações de suas vivências anteriores. No entanto, A produção do artista não é o fator determinante para o desencadear dessa reação em cadeia de reflexões, como afirma Rudolf Arnheim em seu livro Intuição e Intelecto na Arte

“não seria inteiramente correto creditar ao criador do objeto as ricas experiências criadas pela colaboração do ambiente ou da imaginação produtiva do observador. Todo objeto ou acontecimento nesse mundo pode atingir a mente humana com extrema profundidade, se as condições forem favoráveis.” (ARNHEIM, 2004, pág 245).

Sendo assim, ao presumirmos que existe no museu uma ampla rede de convergência atuando para que cada experiência possa ser aberta a significados que vão além, inclusive, das próprias referências carregadas pelo espectador até aquele momento, percebemos que existe algo que excede a mera criação e exibição de uma obra de arte. Isso significa que a experiência da arte requer uma visão mais holística e presente.  Por esse motivo, ao apreender a sensibilidade como uma potência de investigação das percepções humanas, buscamos, nesse texto, analisar o museu como um lugar que representa uma lacuna na vivência cotidiana, essa, sistematizada em rotinas pasteurizadas e, muitas vezes, alienadas de reflexão. Do mesmo modo, pretendemos sinalizar o museu como um espaço a ser preenchido com as possibilidades trazidas pelos visitantes, justamente porque o momento em que museu e espectador se tocam, temos o surgimento de experiências que são capazes de fragmentar a espessa carapaça de arquétipos cotidianos que performam a dessensibilização diária de nossas vivências.

O Museu-lugar

Uma instituição museológica se configura como um lugar que oportuniza experiências dinâmicas, com linguagens expográficas que estimulam a curiosidade e que alimentam o imaginário de seus visitantes. Muito além de sua definição conceitual (que, inclusive, atualmente encontra-se em discussão para reformulação através de ampla mobilização promovida pelo ICOM), e de suas narrativas temáticas, o “estar” em um museu determina uma abertura às possibilidades de percepção que, normalmente, passariam despercebidas no dia-a-dia nas cidades. É certo que toda e qualquer experiência, dentro ou fora do museu, carrega seu potencial transformador. No entanto, o museu abarca, em sua definição, a potência que pode despertar novos olhares do espectador sobre si mesmo, sobre a complexa e diversificada experiência de se estar vivo. Assim, entendendo a experiência como um fenômeno ininterrupto da condição existencial, (como afirma Dewey em Art as experience), o museu-lugar se configura como uma porta para conversão de experiências em práticas capazes de conectar alegorias estéticas e subjetividades de vivências individuais. 

Um ponto favorável ao estímulo da reflexão em um museu é o fato de que os objetos ali contidos e expostos passaram, necessariamente, pelo fenômeno da mudança de estatuto do objeto, transfigurando suas funções utilitárias cotidianas para novas categorias semânticas. Por exemplo, uma cadeira qualquer, utilizada por uma figura ilustre da história, em um museu, torna-se a cadeira onde decisões que mudaram o rumo da história foram tomadas. Sua função utilitária é substituída, nesse caso, por sua relevância enquanto patrimônio histórico. O mesmo ocorre com obras de arte. Uma obra de arte institucionalizada em um museu percorre campos semânticos que correm à revelia do autor, ou seja, se o artista criou sua obra de arte de forma que ela se complete na ação direta do espectador ou do tempo sobre ela, (sendo tocada, manuseada, ou se deteriorando por exemplo), ao se transfigurar em patrimônio, essa obra abandona parte de seu status-quo determinado pela filosofia da arte e passa a performar sua alegoria como patrimônio, portanto, alheia à ação danosa do espectador ou do tempo. É certo que no caso da arte essa mudança de categoria é um fenômeno mais sutil, especialmente por conta da ausência de uma função utilitária a priori a ser “substituída”, além de outras questões que não são pertinentes para esse texto. Vamos nos concentrar aqui em entender que o museu-lugar abriga uma intrigante oportunidade de repensar modos de olhar para as coisas, para cada objeto, cenário ou, até mesmo, para detalhes de sua estrutura fisíca/arquitetônica, e que a mudança de estatuto do objeto é um dos fatores que contribuem para o aumento da suscetibilidade desse desenvolvimento sensível.

O Museu-espaço

Ao mesmo tempo, o museu se configura como um espaço, uma ausente presença de corpos e conceitos do passado que abrem uma lacuna temporal no tecido urbano. Ao preencher esse espaço com a sua presença, o espectador também o ilumina com suas vivências e expectativas, com suas bases ideológicas e com sua carga emocional. Outra característica do espaço museológico é a possibilidade de esvaziamento das pressões e mecânicas cotidianas no momento da visitação. Para compreender melhor essa afirmação, façamos um breve exercício mental: vamos supor a seguinte situação – um aluno de uma escola pública X, com poucos recursos, situada na periferia de uma grande cidade, tem a oportunidade de, através de uma excursão, realizar uma visita à um grande museu. Na ocasião, o aluno, que reside com a mãe solteira e mais quatro irmãos em uma pequena casa mal acabada, também na periferia dessa cidade, leva um bilhete para ela pedindo autorização para ir à excursão. Ao assinar o bilhete, a mãe o autoriza a se deslocar para o museu junto com sua turma. No dia da excursão, o aluno inicia sua visita ao adentrar no ônibus, (na realidade, a visita se inicia no momento em que ele sai de sua casa). Quando finalmente chega ao museu, ele se depara com a imensidão do desconhecido. O teor de novidade em cada instante é tamanho, que até os materiais utilizados na construção da fachada do museu são motivo de atenção e comentários. Durante a visitação, um mediador fica a cargo de atuar como um facilitador do processo de experimentação desse museu, buscando costurar as potencialidades observadas pelos alunos com cada temática que orbita os itens desse museu. Ao terminar a visita, os alunos, em fila, retornam para o ônibus em direção à escola, e, em seguida, para suas casas.

Percebam que nesse exercício mental, o primeiro ponto a ser considerado é a transição estética que ocorre durante o percurso. O aluno sai de sua casa precarizada, (possivelmente alheio à própria vontade – uma vez que ele pode ter sido apenas o executor da ação de levar o bilhete da escola para casa, cumprindo uma burocracia necessária da instituição escolar), e se desloca da periferia para uma região “nobre”, onde se encontra o museu. Ao sair de casa para a escola e, em seguida, para o museu, aos poucos, pela janela do ônibus, a paisagem das casas incompletas, ainda sem o reboco, vão dando lugar à ruas mais bem pavimentadas, condomínios, lojas e casas mais sofisticadas. Ao chegar no museu, esse visitante encontra-se desarmado, deslocado não só de sua escola e de uma aula normal, mas de sua realidade social, econômica e estética. Esse é um momento nobre, onde as categorias analíticas desse individuo encontram-se em suspensão, levadas pelo vazio conceitual que esse novo espaço representa. Por esse motivo, o museu-espaço é o campo fértil, onde as associações livres serão feitas, imaginadas e recriadas.

O museu, o visitante e o educador

Essa explosão de estímulos sensoriais, parte do pressuposto de Serge Daney, descrito por Bourriaud em seu livro Estética Relacional, onde “toda forma é um rosto que nos olha”. (DANEY apud BOURRIAUD, 2009). O autor ainda completa sua reflexão apontando a nítida constatação de que “já que as formas nos olham, como devemos olhar para elas?”(BOURRIAUD, 2009, pág 29). Considerando essa colocação do autor, podemos projetar o instante da visita como esse ponto de fragilidade do sensível, o que faz com que o educador precise se apropriar de uma potencialidade de trabalho que tenha como ponto de partida a articulação de conceitos através das formas, cores, texturas, sensações táteis e pensamentos ventados pelos visitantes, criando um contexto propício à diversos tipos de experiencias, inclusive estéticas. Jean-Marie Guyau, em seu livro: A Arte do Ponto de Vista Sociológico, desenvolve um raciocínio onde o rudimento estético é um potencial vetor para produção de uma emoção estética, sendo essa caracterizada como a mais imaterial e intelectual emoção humana (GUYAU, 2009), portanto, um aspecto que carece de ser explorado pelo educador.

Por outro lado, para que a experiência museológica ocorra em um nível mais sensível, conectando as esferas estéticas e a subjetividade das vivências, como mencionamos anteriormente, é necessário entender que as experiências significativas, que podem ser mensuradas como transformadoras ou marcantes, dependem de forte carga emocional para se consolidar, como aprender a andar de bicicleta por exemplo. Nesse sentido, tudo o que toca a percepção é passível de ser trabalhado pelo educador, sendo matéria-prima para cumprir o objetivo de despertar a curiosidade e provocar reflexões que tornarão o interesse pelo espaço e pelo acervo cada vez mais latente. Nesse ponto, o museu também possui uma vantagem estratégica na indução de sensações e emoções em seus visitantes:

(…) O museu é o lugar em que sensações, ideias e imagens de pronto irradiadas por objetos e referenciais ali reunidos iluminam valores essenciais para o ser humano. Espaço fascinante onde se descobre e se aprende, nele se amplia o conhecimento e se aprofunda a consciência da identidade, da solidariedade e da partilha (…) (CÔRTES, 2019).

Outro aspecto relevante, é considerar que o visitante deve ser observado pelo educador enquanto ser cultural, ou seja, um indivíduo que também traz consigo experiências e vivências pessoais que devem ser reconhecidas como recursos a serem utilizados para ampliação das possibilidades de construção de um conhecimento sensível durante a visitação. Pierre Bourdieu, em suas categorias de capitais simbólicos, afirma que cada indivíduo reage de maneira diferente à estímulos estéticos, por conta de valores e apropriações provenientes de socializações primárias, construindo um repertório cultural que possibilita cada um de nós intuir acerca de valores estéticos ou culturais, que acabariam, ao fim, sendo utilizados como recursos de poder. Deste modo, Bourdieu sugere, em algumas ocasiões, que a cultura pode ser utilizada como veículo de mobilidade social (SILVA, 1995, pág, 28).

Portanto, o museu, através do educador, no momento da visitação, deve propor uma abordagem institucional que desloca o visitante de sua posição de mero receptor de informações/orientações acerca da instituição e acervo, para uma posição participativa, sendo estimulado a atuar ativamente na troca de conhecimentos inerentes às atividades do museu e da própria vida, buscando, de forma criativa, criar abordagens que apontem para a amplidão da vulnerabilidade do sensível no momento da visita. Assim sendo, o museu precisa exercer o seu papel de agente catalizador, promotor de ações educativas, poéticas e multisensoriais que apresentem diversos trajetos e possibilidades onde o visitante torna-se partícipe da construção do próprio conhecimento.

Referências
ARNHEIM, Rudolf. Intuição e intelecto na arte. São Paulo: Martins Fontes, 2 edição, 2004.

DEWEY, John. Art as Experience. New York, USA: The Berkley publishing group, 2005.

RANCIÈRE Jacques. A Partilha do Sensível: estética e política. São Paulo: EXO experimental; Editora 34, 2009.

BOURRIAUD, Nicolas. Estética Relacional. São Paulo: Martins Fontes, 2009.

GUYAU, Jean-Marie. A Arte do Ponto de Vista Sociológico. São Paulo: Martins Fontes, 2009.

CERBONE, David. Fenomenologia. Rio de Janeiro: Editora Vozes, 2006.

CÔRTES, Frederico Lopes. Base Epistemológica. Documento base da divisão de educação do Memorial da República Presidente Itamar Franco, 2019.

SILVA, Gilda Olinto do Valle. Capital Cultural, Classe e Gênero em Bourdieu. INFORMARE – Cacto Prog. PÓs-Gract. Ci. 1nf., v. L n.2, p.24-36, jul./dez. 1995 ECO/UFRJ – IBICT/Cnpq. 


Frederico Lopes de Oliveira Côrtes é artista e educador, graduado em artes pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), especialista em gestão cultural pela FAGOC. Possui treinamento profissional em conservação e restauro de papel pelo LACOR/MAMM-UFJF. Atuou no setor de curadoria e expografia do Museu de Arte Murilo Mendes de 2013 a 2017. Integrou a equipe de implementação do Memorial da República Presidente Itamar Franco, onde trabalhou na curadoria e na coordenação da divisão de educação até 2021. É fundador da Instituição Cultural Bodoque Artes e ofícios (2012), da Revista Trama (2019), do Museu de Artes e ofícios Bodoque (2020) e do Laboratório de Criação em Artes visuais e Design Bodoque ARTELAB (2020). Acredita na Arte e na Cultura como ferramentas fundamentais para transformação do olhar e criação de novas possibilidades de se exercer a vida.

O Museu e seu entorno como território educador

Na etimologia da palavra Museu, do latim MUSEUM, derivado do grego MOUSEION, reportamo-nos ao que é “próprio das musas”. Da semiologia da expressão, temos por entendimento a referência básica ao Templo, ou seja, onde residem as musas e divindades gregas que inspiravam diversas formas de arte. Outrossim, esta definição, embora seja o alicerce fundamental para o entendimento das atividades de um museu na comunidade em que está inserido, não deve nos impedir de analisar com atenção as transformações no tecido social que trouxerem outras maneiras de compreender a atuação do Museu em nossos dias.

Muito além de salvaguardar seus acervos e comunicá-los, os museus, desempenham um papel importante e estratégico para transformação social. E a educação ocupa lugar de destaque nesse aspecto.

Entendendo os objetos museológicos e as narrativas expográficas como ferramentas de trabalho, a divisão de educação, ou o setor educativo de um museu, tem como principal papel atuar como um agente facilitador nos processos experimentados pelo visitante diante do acervo. Por este motivo, a maior parte do trabalho de um educador em um museu consiste em criar estratégias de mediação que proporcionem ao visitante autonomia sobre o conhecimento que deseja construir. Por isso, se faz necessário constituir e consolidar abordagens que investiguem as instituições com ênfase nos objetos museológicos, no espaço arquitetônico, e área do entorno, buscando proporcionar uma experiência única de vivência e aprendizado para o público. 

Com relação a mediação, um método que se apresenta como relevante caminho ao educador de museu é a busca por explorar a potência dos conceitos que os itens do acervo carregam, especialmente a partir de observações feitas pelo próprio visitante. Deste modo, o mediador trabalha com as possibilidades de interpretação, que retiram o visitante de sua posição de mero expectador e o traz para o centro deste processo. Por este motivo, existe uma dedicação especial nas pesquisas realizadas pelo educativo de um museu em desenvolver abordagens que vão além das características elementares da instituição, propiciando aos interlocutores inquietações que permitam a compreensão de contextos políticos, sociais, culturais e até mesmo acerca das predileções estéticas que cada indivíduo carrega consigo.

Portanto, em espaços não formais de educação, os processos tendem a ser mais abertos e as estruturas menos rígidas na dinâmica de ensino e aprendizagem. Isso ocorre porque é fundamental se apropriar da ideia de que a experiência museológica, ou seja, o ato de se adentrar em um museu e estar presente durante este processo, prevalece em relação à mera explanação de informações, privilegiando a experiência do visitante ao espaço como prática libertadora de aprendizagem. 

Sendo assim, é interessante pensar que, muito além de um templo onde repousam as musas adornadas por sacrifícios intelectuais, o museu sinaliza um território educador, como um marco no tecido urbano da cidade, que anuncia a extensão de suas práticas à dimensão humana de cada indivíduo.

Uma conversa com a Educadora Juliana Prado sobre sua atuação no Museu Casa do Pontal

Você conhece o Museu Casa do Pontal? Localizado no bairro Recreio, no Rio de Janeiro, ele é considerado o maior e mais significativo museu de arte popular do país. As obras que estão sob sua guarda nos mostram como a realidade local pode influenciar diretamente no fazer artístico. Seu acervo nos permite estabelecer relações muito claras entre poética, materialidade e território, já que muitas dessas obras retratam a partir do barro e da madeira, cenas do cotidiano desses mestres de arte, artesãos e artífices, que emergem de um contexto onde a arte significa, sobretudo, uma forma de trabalho, um ofício.

Tivemos a oportunidade de conversar com a arte educadora Juliana Prado Teixeira, que atuou como coordenadora educacional da Casa do Pontal do ano de 1998 a 2015, e atualmente atua no Museu eventualmente na formação de mediadores para exposições. O educativo da instituição conta com visitas teatralizadas educacionais, seminários, oficinas, atividades em escolas, formação continuada e publicações direcionadas, e teve seu trabalho reconhecido através do Prêmio “Amigo das Escolas”, concedido pela Secretaria Municipal de Educação (2002), pela Menção de Destaque para o Programa Educacional e Social no Prêmio Somos Patrimônio (2008) e pela Menção Honrosa no Prêmio Darcy Ribeiro de ações educativas em museus, concedida pelo Departamento de Museus do Iphan (2008).

MAOB – Na sua visão, qual a importância da preservação e difusão de acervos que carregam narrativas sobre a cultura popular brasileira?

Juliana – Bem, é importantíssimo pra nossa formação saber de onde viemos, como interferimos no planeta, rever nossas experiências bem ou mal sucedidas. Isso nos dá um sentimento de pertencimento a determinado grupo. Nos traz auto-confiança, auto-estima, noção do coletivo, resgata afetividades, autoconhecimento e criatividade para lidar com os desafios da vida. E no caso da cultura popular, que nasce nas camadas menos favorecidas da sociedade, isso é essencial porque demonstra que a cultura está em toda parte, independente de fatores econômicos e sociais. Esse reconhecimento da importância da cultura popular é essencial para a formação de uma sociedade justa, igualitária, criativa e colaborativa.

MAOB – Que postura a ação educativa museal deve assumir para contribuir efetivamente no respeito e conhecimento da diversidade cultural brasileira?

Juliana – Ela deve assumir uma postura dialogal com o visitante e principalmente com os estudantes. Porque através do diálogo você pode fazer links interessantíssimos de elaboração cognitiva do acervo e da visita. Uma visita ao museu pode se transformar numa “experiência inesquecível”. E até mesmo abrir portas para transformação de vidas. Claro que quando a gente vai dialogar com alguém é necessário que estejamos com a mente e o coração abertos e que estejamos atentos para perceber que tipo de linguagem e conversa podemos desenvolver, sem pré-conceitos e preconceitos. Cada público é um público, cada estudante é um estudante, o indivíduo e o coletivo, o uno e o todo. E precisamos estar com uma escuta bem ativa para podermos perceber o outro, suas necessidades e afetividades. Acolhimento, escuta e afeto são palavras-chaves para um bom trabalho educacional no museu.

MAOB – A Casa do Pontal oferece visitas teatralizadas, você pode explicar quais são as diferenças deste tipo de visita e como ela surgiu?

Juliana – A visita teatralizada utiliza a linguagem teatral para fazer instigações a fim de contextualizar as obras através de versos, músicas, danças e dramatizações. Muitas vezes essas linguagens artísticas despertam memórias afetivas que nos permitem criar sentidos relacionados ao acervo. Sentidos tanto individuais como coletivos. Nós só absorvemos o aprendizado quando ele faz sentido pra gente, nem que ele seja imaginado, ou seja, quando elaboramos e participamos ativamente da criação do conhecimento. Aí aprendemos de fato. No caso da arte popular é muito fácil criar sentido porque é uma arte de comunicação muito direta, mas mesmo assim é importante que o público possa criar e elaborar seus próprios sentidos, num diálogo permanente entre eles e com o acervo.

A visita teatralizada foi criada ao percebermos que o acervo do museu nos remetia a versos, músicas e histórias da cultura popular que praticamente surgiam das obras por elas mesmas. Como se as esculturas falassem, dançassem, cantassem. A cultura brasileira é muito rica e diversa. E a arte está presente muito intensamente nas nossas vidas. A linguagem teatral é muito dialogal, é viva, em ebulição, ao mesmo tempo diáfana e transformadora. O teatro é livre para quebrar estereótipos, permitindo que o público se veja, muitas vezes, criando novos papéis para si e elaborando novas possibilidades para a resolução de problemas. Abre as portas da criatividade.

MAOB – O trabalho aparece com frequência como tema nas obras do Museu, por que você acha que existia esse interesse em retratar as profissões?

Juliana – Porque, como dizia Jacques Van de Beuque, o criador do museu, “o povo brasileiro está sempre trabalhando”. O trabalho está no dia-a-dia de todo mundo. Ele é muito importante no imaginário social. Ter um ofício ou uma profissão nos torna cidadãos reconhecidos socialmente. Até mesmo na hora de festejar e se divertir o trabalho aparece. A cultura popular tem sua complexidade também, sua elaboração, sua organização, mesmo que possa parecer, a princípio, caótica. Isso requer trabalho. Nas festas populares, por exemplo, existe uma quantidade enorme de pessoas trabalhando para sua realização. Nas danças, nas indumentárias, na música, na culinária, nos cenários, etc… Às vezes, a comunidade inteira está envolvida nessa produção. De modo que o trabalho, a arte e a criatividade andam juntos, não tem separação, não tem gavetinhas, é tudo misturado no dia-a-dia com muita alegria e colaboração.

MAOB – Ao relembrar sua longa jornada enquanto educadora no Museu Casa do Pontal, imagino que venham muitas memórias de afeto das experiências de mediação vivenciadas ali. Existe alguma que se destaca? Por quê?

Juliana – Realmente, foram 18 anos de aprendizado constante, muita afetividade, muitas descobertas, muita troca com os estudantes, professores, pessoal das organizações e projetos sociais, seminários, atividades e exposições fora do Museu, até em outros países. Uma experiência transformadora para mim, como pessoa e como educadora. É muito difícil citar uma única experiência, ainda mais assim rapidamente. As pessoas voltam ao Museu, muito tempo depois perguntando sobre determinada música, artista que conheceu ou versos e atividades feitas. Sempre querem voltar, trazer um amigo, um parente. Muitos relatos de portas que se abriram. Me lembro de uma menina que saiu de uma visita e comentou, “puxa, não sabia que eu era tão importante pra ter um museu sobre as minhas coisas…” E aí você vê o que pode ser “uma experiência inesquecível”.